Presidente discursava sobre segurança pública e urbanização de favelas quando foi interrompido por cidadão revoltado. Agressão, retirada pela PF e repercussão nas redes acirraram o clima político no estado mais estratégico do país.

O ambiente era de solenidade e discursos institucionais até que, de forma abrupta, a tensão tomou conta de um evento oficial em Osasco (SP), nesta sexta-feira, 25 de julho. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursava sobre segurança pública e políticas de urbanização em comunidades carentes quando foi surpreendido por um manifestante na plateia. O homem gritou, chamando o presidente de “ladrão” e relembrando sua prisão, em referência aos episódios da Lava Jato. O ato provocou um tumulto imediato e escancarou, mais uma vez, a polarização política que domina o país.
Gritos, empurrões e retirada pela PF
Ao ouvir a provocação, apoiadores do presidente reagiram com hostilidade. Dois deles partiram para cima do manifestante, que foi rapidamente cercado e, pouco depois, retirado do local pela Polícia Federal. Ainda enquanto era conduzido para fora da cerimônia, o homem conseguiu gritar: “E a democracia?”, gerando um novo burburinho no público presente.
Durante os instantes de tensão, Lula interrompeu sua fala brevemente, mas preferiu não se manifestar sobre o ocorrido. Em seguida, retomou o discurso como se nada tivesse acontecido, mantendo o foco na pauta do evento: o investimento do governo federal em obras de urbanização nas favelas brasileiras.
Cena viralizou nas redes sociais e reacendeu debate político
O episódio, capturado por diversos celulares, rapidamente viralizou nas redes sociais, dominando os trending topics do X (antigo Twitter), Instagram e TikTok. Entre os comentários, internautas se dividiram. De um lado, os que defendem o direito à liberdade de expressão, criticando a reação agressiva dos apoiadores do presidente. De outro, os que classificaram o protesto como inadequado e ofensivo, argumentando que um evento oficial não é espaço para manifestações desse tipo.
A polêmica levantou, mais uma vez, o debate sobre os limites da crítica política e o clima de intolerância crescente no Brasil. Especialistas em direito constitucional lembraram que a liberdade de expressão é um direito fundamental, mas que não impede a responsabilização por atitudes que perturbem a ordem pública ou violem normas em ambientes institucionais.
Evento do PAC Periferia Viva
Apesar do tumulto, o evento seguiu conforme o cronograma previsto. Lula esteve em Osasco para lançar uma nova etapa do programa PAC Periferia Viva – Urbanização de Favelas, iniciativa do governo federal voltada à melhoria de infraestrutura em comunidades historicamente negligenciadas.
Durante a cerimônia, o presidente anunciou a liberação de R$ 4,67 bilhões que serão investidos em 49 comunidades de 12 estados. Em Osasco, as favelas beneficiadas são Jardim Rochdale, Favela da 13 e Favela do Limite, que receberão melhorias em saneamento básico, pavimentação, iluminação e equipamentos públicos.
Lula destacou a importância de levar dignidade às regiões periféricas, afirmando que “não há democracia verdadeira enquanto milhões de brasileiros vivem sem acesso ao mínimo”. O discurso focou ainda na segurança pública, um dos temas mais sensíveis no cotidiano urbano, mencionando o aumento dos roubos de celulares nas grandes cidades como sinal de alerta para a necessidade de políticas públicas mais eficazes.
Autoridades presentes e articulações políticas
O evento contou com a presença de figuras de peso no cenário político nacional. Além do presidente Lula, participaram o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), os ministros Rui Costa (Casa Civil), Márcio França (Empreendedorismo) e Jader Filho (Cidades), além de diversos deputados federais, como Alfredinho, Alencar Santana, Jilmar Tatto e Vicentinho, todos do PT. O deputado Guilherme Boulos (PSOL) também marcou presença, reforçando sua aliança com o governo federal. O secretário nacional de Periferias, Guilherme Simões, indicado por Boulos, também esteve no evento.
A forte presença de aliados demonstra que o evento tinha, além do caráter institucional, um tom político evidente. Com a aproximação das eleições municipais de 2026, o governo tenta consolidar apoio nas periferias e marcar território no estado mais populoso do país.
Lula intensifica agenda em São Paulo
Esta foi a oitava visita de Lula ao estado de São Paulo em 2025, o que sinaliza o peso estratégico que a região representa para o governo federal. A capital paulista e os municípios da Grande São Paulo concentram milhões de eleitores e são palcos de disputas acirradas entre esquerda e direita.
Mesmo diante de tensões, Lula tem investido pesado em obras de infraestrutura, programas sociais e parcerias com prefeituras da região metropolitana. O objetivo é reverter a imagem desgastada deixada pela crise econômica e pelas polêmicas envolvendo o governo anterior.
Curiosamente, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), compareceu a apenas um dos eventos presidenciais no estado em 2025 — a cerimônia de lançamento do Túnel Santos-Guarujá, em fevereiro. Desde então, Lula e Tarcísio, que são adversários políticos declarados, não dividiram mais o mesmo palanque.
Tensão política é reflexo de polarização nacional
O incidente desta sexta-feira, ainda que isolado, escancara o nível de polarização política vivido no Brasil. Mesmo em eventos de caráter institucional, manifestações de apoio ou repúdio a figuras públicas têm se tornado frequentes — e, muitas vezes, violentas.
O silêncio de Lula sobre a agressão ao manifestante também gerou críticas por parte de adversários e analistas, que esperavam um posicionamento claro em defesa do direito ao protesto pacífico. Por outro lado, apoiadores do presidente alegam que a manifestação foi inoportuna e que a retirada do indivíduo foi legítima para preservar a ordem do evento.
Fato é que o vídeo da confusão tornou-se símbolo de um país em constante ebulição política, onde o diálogo cede espaço a embates passionais. Com as eleições se aproximando, o episódio serve de alerta para o que pode estar por vir nos próximos meses.











Criação de Ministério da Segurança ainda em 2026 divide governo Lula