A conjuntura econômica norte-americana atravessa um momento delicado, no qual incerteza com tarifas faz empresas dos EUA adotarem cautela em contratações, refletindo diretamente no ritmo do mercado de trabalho e nas decisões estratégicas do setor produtivo. Desde que o presidente Donald Trump retomou e ampliou políticas tarifárias no ano passado, economistas, empresários e investidores passaram a conviver com um cenário marcado por imprevisibilidade, ajustes constantes e aumento do risco econômico.
Inicialmente, muitos analistas alertaram que as novas tarifas provocariam uma combinação explosiva de inflação elevada e aumento do desemprego. Agora, com a maior parte dos dados econômicos de 2025 já divulgados, observa-se que essas previsões se confirmaram parcialmente, ainda que de maneira desigual entre preços e emprego.
Impacto limitado nos preços, mas forte no emprego
Por um lado, embora algumas importações tenham registrado aumentos expressivos, como carne bovina, café e tomates, a inflação geral permaneceu relativamente estável. Por outro lado, o mercado de trabalho sentiu o impacto de forma muito mais intensa, especialmente no ritmo de criação de vagas e no nível de desemprego.
De acordo com dados oficiais, o crescimento médio mensal de empregos em 2024 e 2025 foi o mais baixo das últimas décadas, quando se excluem períodos de recessão. Além disso, a taxa de desemprego avançou 0,4 ponto percentual, atingindo 4,4% em 2025, conforme o relatório de empregos de dezembro divulgado na sexta-feira (9).
Esse movimento evidencia que, embora a inflação não tenha disparado como temiam alguns economistas, a incerteza com tarifas afetou diretamente as decisões de contratação das empresas americanas.

Um mercado de trabalho já pressionado
É importante destacar que o mercado de trabalho dos Estados Unidos já dava sinais de desaceleração antes mesmo da entrada em vigor das novas tarifas. O crescimento mais lento da economia global, somado à normalização do consumo após os estímulos pós-pandemia, já tornava o cenário mais restritivo.
No entanto, as tarifas amplas adotadas por Trump, bem como os inúmeros ajustes e revisões posteriores, contribuíram para ampliar a cautela das empresas. Afinal, mudanças frequentes nas regras do comércio internacional dificultam o planejamento de médio e longo prazo.
Era da incerteza domina decisões empresariais
Nesse contexto, instala-se o que muitos analistas chamam de “era da incerteza”. Sem clareza sobre os próximos passos da política comercial americana, empresas de diferentes setores passaram a suspender planos de expansão e, principalmente, a adiar contratações.
Em alguns casos, a resposta foi ainda mais drástica: demissões seletivas, congelamento de vagas abertas e redução de investimentos. Para muitos executivos, manter liquidez e flexibilidade tornou-se prioridade.
Segundo o economista Sean Snaith, da Universidade da Flórida Central, esse comportamento é racional diante do cenário atual. “Não há nenhuma razão convincente para sair contratando em massa”, afirmou. “Essa é uma resposta lógica quando se lida com esse tipo de incerteza.”
Tarifas mudam a lógica da lucratividade
Além disso, as tarifas alteraram profundamente os cálculos das empresas sobre o que é ou não financeiramente viável. Insumos mais caros reduzem margens de lucro, enquanto a volatilidade das regras comerciais dificulta a avaliação de riscos.
Dean Baker, economista sênior do Centro de Pesquisa Econômica e Política, explica que muitas empresas estão revendo projetos que antes pareciam sólidos. “As empresas estão vendo preços mais altos, o que reduz a lucratividade; e, em termos de novos investimentos, estão hesitantes porque as tarifas tornam muitos investimentos que eram lucrativos em não lucrativos”, afirmou.
Consequentemente, a cautela se espalha não apenas pelas contratações, mas também pela expansão de fábricas, modernização de equipamentos e abertura de novas unidades.
Consumidores também adiam decisões
Paralelamente, os consumidores americanos passaram a adotar comportamento semelhante. A instabilidade nos níveis de tarifas gera dúvidas sobre preços futuros, levando muitas famílias a adiar compras de maior valor, especialmente bens duráveis.
Esse fenômeno cria um efeito cascata: com consumidores mais cautelosos, as empresas enfrentam menor demanda, o que reforça a decisão de não ampliar seus quadros de funcionários.
Um exemplo claro disso aparece no Livro Bege do Federal Reserve de Richmond, que reúne relatos de empresas em diversas regiões. Segundo o documento, vários contatos do setor manufatureiro relataram que seus clientes reduziram novos pedidos devido à incerteza em relação às tarifas.
Empresas absorvem custos para conter inflação
Curiosamente, apesar do aumento dos custos, muitas empresas optaram por absorver parte das tarifas em vez de repassá-las integralmente aos consumidores. Essa estratégia ajudou a manter a inflação sob controle, evitando um impacto mais visível nos índices de preços.
No entanto, essa absorção de custos tem limites. À medida que as margens se estreitam, cresce a pressão interna por cortes de despesas, o que frequentemente se traduz em congelamento de contratações ou redução de pessoal.
Assim, ainda que a inflação esteja relativamente contida, o preço dessa estabilidade aparece no mercado de trabalho.
Política comercial gera paralisia estratégica
Outro ponto central é que a política comercial de Trump criou um ambiente de paralisia estratégica. Muitas empresas simplesmente não sabem como planejar seus próximos passos, dado o risco de novas tarifas ou mudanças abruptas nas regras existentes.
Essa incerteza afeta desde pequenas empresas importadoras até grandes multinacionais com cadeias globais de suprimentos. Em todos os casos, a reação tem sido semelhante: prudência extrema.
Além disso, setores mais dependentes de comércio internacional, como manufatura e agronegócio, sentem os efeitos de forma ainda mais intensa.
O papel da Suprema Corte
O cenário pode sofrer mudanças significativas dependendo do desfecho de um caso histórico em análise na Suprema Corte dos Estados Unidos. A Corte avalia a legalidade de algumas das tarifas mais abrangentes impostas por Trump, o que pode resultar na invalidação dessas taxas.
Se isso ocorrer, as empresas poderão, em tese, receber reembolsos substanciais dos valores já pagos em tarifas. No entanto, especialistas alertam que esse processo pode ser longo, burocrático e juridicamente complexo.
Ainda assim, a simples possibilidade de mudança no regime tarifário adiciona mais um elemento de incerteza ao ambiente econômico.
Expectativas para os próximos meses
Diante desse quadro, economistas projetam que o mercado de trabalho americano continuará avançando em ritmo lento enquanto persistirem dúvidas sobre a política comercial. Embora não se espere uma recessão iminente, o crescimento do emprego tende a permanecer abaixo da média histórica.
Ao mesmo tempo, qualquer sinal de maior previsibilidade — seja por decisões judiciais, seja por mudanças na estratégia do governo — pode destravar investimentos e contratações represadas.
Até lá, contudo, a palavra de ordem entre as empresas dos EUA segue sendo cautela.
Conclusão
Em síntese, incerteza com tarifas faz empresas dos EUA adotarem cautela em contratações, afetando diretamente o dinamismo do mercado de trabalho americano. Embora os temores inflacionários não tenham se concretizado plenamente, o impacto sobre o emprego é evidente e persistente.
Assim, enquanto o país aguarda maior clareza sobre os rumos da política comercial, empresas, trabalhadores e consumidores seguem navegando em um ambiente de incerteza, no qual decisões são adiadas e riscos são cuidadosamente calculados.











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