Golpe da falsa plataforma fez herdeira perder R$ 37 milhões

Uma aposentada do Rio Grande do Sul perdeu cerca de R$ 37 milhões depois de ser atraída para um sofisticado esquema de investimentos fraudulentos. O dinheiro havia sido recebido por meio de uma herança e estava aplicado em uma corretora tradicional, mas a vítima decidiu transferir os recursos para uma suposta plataforma financeira indicada por criminosos. O caso veio à tona durante a Operação Criptoabate, deflagrada pela Polícia Civil gaúcha em 13 de agosto de 2026, com ações realizadas em São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
A investigação revelou que o golpe não funcionava apenas por meio de uma página falsa na internet. Segundo os investigadores, uma estrutura organizada era utilizada para conquistar a confiança dos investidores, manter contato constante com eles e estimular novos depósitos. Dessa forma, a vítima era conduzida gradualmente a aumentar os valores aplicados, enquanto recebia mensagens, informações sobre supostos ganhos e orientações sobre novas operações financeiras.
O caso chama atenção principalmente pelo volume de dinheiro movimentado e pela complexidade da organização investigada. Conforme informado pela Polícia Civil ao Metrópoles, o grupo teria movimentado aproximadamente R$ 30 bilhões, enquanto mais de 140 possíveis vítimas foram identificadas. Além disso, a capital paulista concentrava alguns dos principais alvos da investigação, incluindo pessoas ligadas a instituições que realizavam conversões de reais para criptomoedas.
Como herdeira perdeu R$ 37 milhões em investimentos falsos
A história começou a ser investigada no início de 2025, depois que a aposentada procurou a polícia para relatar um prejuízo que inicialmente foi estimado em quase R$ 40 milhões. De acordo com o depoimento obtido pelos investigadores, os primeiros aportes foram realizados em meados de 2024 e tinham valores relativamente menores diante do patrimônio disponível. Inicialmente, foram transferidos cerca de R$ 100 mil, mas os depósitos passaram posteriormente para R$ 400 mil e R$ 500 mil. Com a evolução do esquema, chegaram a ser feitos aportes de R$ 2 milhões a R$ 3 milhões em apenas um dia.
As transferências prosseguiram até janeiro de 2025. Nesse período, cerca de R$ 37 milhões foram enviados para contas e plataformas indicadas pelos criminosos. A fraude somente começou a ser percebida quando a aposentada identificou uma queda repentina no valor apresentado nas operações e tentou retirar parte dos recursos. Entretanto, os resgates não puderam ser concluídos, situação que fez surgir a suspeita de que os investimentos apresentados como legítimos não existiam da maneira como haviam sido apresentados.
Golpe do abate de porcos usa confiança para atrair vítimas
O método identificado pela polícia é conhecido internacionalmente como pig butchering, expressão que pode ser traduzida como abate de porcos. A estratégia consiste em estabelecer uma relação de confiança com a vítima antes de convencê-la a investir quantias cada vez maiores. No caso investigado, a comunicação teria sido mantida principalmente por meio do WhatsApp, com diferentes canais destinados ao atendimento financeiro e comercial.
Segundo as informações da investigação, as vítimas recebiam mensagens frequentes, notícias sobre o mercado, supostos comprovantes de operações e relatos de investidores que aparentavam estar obtendo lucros. Paralelamente, os valores transferidos em reais eram convertidos em criptomoedas dentro da estrutura utilizada pelo grupo, enquanto novas instruções eram apresentadas aos clientes. Assim, uma aparência de funcionamento regular era criada para dificultar a percepção da fraude e estimular novos aportes.
Investigação revela estrutura milionária em São Paulo
A Operação Criptoabate também mostrou que o esquema investigado possuía uma estrutura financeira ampla. Em São Paulo, os investigadores localizaram uma empresa instalada no centro financeiro da capital que teria movimentado R$ 500 milhões somente em 2025. Durante a apuração, as transações atribuídas aos suspeitos chegaram a aproximadamente R$ 30 bilhões, valor que demonstra a dimensão da estrutura analisada pelas autoridades.
A Justiça determinou a prisão preventiva de oito pessoas e autorizou dez mandados de busca e apreensão. Até a divulgação das informações sobre a operação, dois suspeitos haviam sido presos, enquanto outros seis eram considerados foragidos. Entre os investigados estão três proprietários de instituições financeiras relacionadas à conversão de reais em criptomoedas, dois estrangeiros, sendo um deles sócio dessas empresas, e uma gerente de banco tradicional que, segundo a investigação, teria facilitado a abertura de contas utilizadas pela organização.
O delegado Eibert Moreira, diretor do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos e um dos responsáveis pela investigação, afirmou que o objetivo é alcançar toda a cadeia envolvida nas fraudes. Dessa maneira, a apuração não está limitada aos responsáveis pelo contato direto com as vítimas, mas também procura identificar quem teria fornecido estruturas financeiras para movimentar ou ocultar os recursos obtidos ilegalmente. A investigação, portanto, deverá continuar com a análise dos materiais recolhidos e com a identificação de possíveis novos integrantes e vítimas do esquema.
O caso da aposentada também demonstra como golpes de investimento podem ser construídos de maneira gradual, especialmente quando grandes quantias são envolvidas. Em vez de uma abordagem única e imediata, a vítima foi estimulada a realizar depósitos sucessivos, enquanto uma falsa sensação de segurança era mantida por meio de comunicação constante e informações aparentemente relacionadas ao mercado financeiro. Por isso, a identificação de plataformas de investimento legítimas, a verificação da empresa responsável e a confirmação de onde os recursos serão efetivamente custodiados são etapas fundamentais antes de qualquer transferência de valores elevados.
A Operação Criptoabate representa, ainda, uma investigação de grande alcance contra um modelo de fraude que, segundo a polícia, começou a ser introduzido no Brasil a partir de uma modalidade conhecida internacionalmente. O prejuízo de R$ 37 milhões sofrido pela herdeira é apenas uma parte de uma apuração que já encontrou mais de 140 possíveis vítimas e uma movimentação financeira bilionária. Enquanto os investigadores avançam na identificação dos envolvidos, o caso permanece sob apuração das autoridades competentes, que deverão buscar esclarecer o destino dos valores e a participação de cada suspeito na estrutura investigada.



