Brasil pode copiar Milei e cortar salários de políticos em 50% se contas ficarem no vermelho

Uma proposta apresentada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) pretende mudar a forma como autoridades do alto escalão do governo seriam afetadas em momentos de deterioração das contas públicas. Batizada de “PEC da Responsabilidade”, a iniciativa estabelece mecanismos que poderiam reduzir automaticamente os salários do presidente da República, vice-presidente, ministros, deputados e senadores caso determinados critérios fiscais fossem atingidos. A proposta parte de uma ideia simples: se o país entrar em uma trajetória de desequilíbrio financeiro, os integrantes da classe política também deverão participar do esforço de contenção de despesas. O texto prevê uma redução inicial de 25% nos vencimentos e, caso a situação permaneça no ano seguinte, o percentual poderia chegar a 50%. Além da remuneração das autoridades, a PEC prevê outras limitações para despesas públicas consideradas não essenciais. Serviços classificados como essenciais ficariam preservados. Segundo Nikolas, a inspiração para a medida veio de ações adotadas pelo governo do presidente argentino Javier Milei, experiência que o parlamentar afirma ter observado para adaptar ao cenário brasileiro. “Sim, copiamos aquilo que é bom”, declarou o deputado ao explicar a origem da proposta. A iniciativa, porém, ainda está no começo do processo e não representa uma mudança imediata nos salários das autoridades.
O texto estabelece critérios objetivos para determinar quando o mecanismo poderia ser acionado. Entre os gatilhos previstos está a possibilidade de aumento da dívida pública equivalente a cinco pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) em um período de dois anos. Outro cenário considerado seria o descumprimento da meta de resultado primário durante dois exercícios consecutivos. Se uma dessas condições for confirmada, entrariam em vigor medidas de contenção de despesas de maneira escalonada, sem a necessidade de uma nova lei específica para autorizar cada redução. O primeiro estágio prevê restrições sobre gastos considerados não essenciais, além de mudanças relacionadas a benefícios, verbas indenizatórias e outras despesas. Caso o quadro fiscal continue no ano seguinte, seria aplicado um segundo nível de ajuste, com redução maior nos vencimentos das principais autoridades federais. A proposta, portanto, não prevê que uma eventual queda na remuneração aconteça simplesmente porque o governo registrou um resultado negativo em determinado período. A intenção é criar regras previamente estabelecidas para que o mecanismo seja acionado somente quando indicadores definidos no texto demonstrarem uma deterioração fiscal mais persistente.
Os valores envolvidos ajudam a dimensionar o que a PEC representaria para os ocupantes dos principais cargos da República. O salário bruto atualmente associado ao teto do funcionalismo público é de R$ 46.366,19, valor que também corresponde à remuneração de deputados federais e senadores. Com uma redução de 25%, esse montante passaria para aproximadamente R$ 34,8 mil. Se o cenário fiscal permanecesse desfavorável e o segundo estágio fosse acionado, a redução de 50% levaria o vencimento para cerca de R$ 23,2 mil. Os cálculos consideram valores brutos, antes dos descontos de Imposto de Renda e contribuição previdenciária. A proposta também estabelece restrições à concessão de novos reajustes, vantagens ou adequações remuneratórias enquanto o regime de contenção estiver em vigor. Ao defender a iniciativa, Nikolas afirmou que a medida busca concentrar o impacto do ajuste sobre a estrutura política, resumindo sua posição na frase: “O corte é na política, não no povo”. Na prática, o objetivo seria criar uma ligação direta entre a situação das contas públicas e a remuneração de autoridades que participam das decisões sobre orçamento, arrecadação e gastos do governo.
Apesar da repercussão política que uma medida desse tipo pode provocar, o impacto financeiro direto dos cortes nos salários das autoridades tende a ser limitado diante do tamanho do orçamento federal. As remunerações de presidente, vice-presidente, ministros, deputados e senadores representam apenas uma parcela pequena das despesas públicas brasileiras. Mesmo uma redução de 50% nos vencimentos não teria capacidade, sozinha, de alterar de forma significativa a trajetória da dívida pública ou resolver problemas estruturais das contas nacionais. O equilíbrio fiscal depende de diversos fatores, incluindo receitas, despesas obrigatórias, Previdência, transferências, investimentos, programas públicos e custo do endividamento. Por esse motivo, a principal consequência da proposta pode estar no campo político e institucional. Ao vincular a remuneração dos agentes públicos a determinados indicadores fiscais, a PEC pretende aumentar a pressão para que Executivo e Legislativo adotem medidas de controle das despesas quando o cenário financeiro se deteriorar. A ideia também cria um componente simbólico importante: autoridades responsáveis por decisões orçamentárias passariam a enfrentar uma consequência financeira direta caso os gatilhos previstos fossem atingidos. Ainda assim, a eventual aprovação da medida não eliminaria a necessidade de outras ações para enfrentar desafios relacionados às contas públicas.
A experiência argentina é apresentada pelo autor da PEC como uma das referências para a iniciativa brasileira. Durante o governo de Javier Milei, medidas de contenção de despesas atingiram diferentes áreas da administração pública, incluindo a estrutura remuneratória de integrantes do alto escalão. Em março de 2024, o governo argentino anunciou o cancelamento de aumentos destinados ao pessoal hierárquico da Administração Pública Nacional, abrangendo presidente, vice-presidente, ministros e secretários. Também foi revogada uma regra que relacionava reajustes de servidores públicos aos salários de integrantes do alto escalão. Essas ações fizeram parte de um programa econômico mais amplo, que incluiu redução de subsídios, revisão de estruturas administrativas, diminuição de cargos e contratos e outras medidas de controle dos gastos. Em 2025, o governo argentino informou ter eliminado mais de 50 mil postos de trabalho no Estado desde o início da gestão, com uma estimativa de economia anual próxima de US$ 2 bilhões. O país também passou a apresentar resultado fiscal positivo e registrou uma redução expressiva da inflação em comparação com o cenário anterior. A diferença é que, na Argentina, a redução de despesas integrou um programa amplo conduzido pelo Executivo, enquanto a proposta brasileira busca transformar o corte de remuneração de autoridades em um mecanismo constitucional condicionado a gatilhos fiscais.
Antes de qualquer mudança nos salários das autoridades brasileiras, porém, a “PEC da Responsabilidade” ainda precisará superar várias etapas no Congresso Nacional. Por ser uma proposta de emenda à Constituição, Nikolas Ferreira precisa reunir 171 assinaturas de deputados para formalizar sua apresentação na Câmara. Depois dessa fase, o texto deverá passar pela análise das comissões responsáveis e, caso avance, será submetido à votação em dois turnos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Para alterar a Constituição, são necessários três quintos dos votos dos deputados e três quintos dos senadores em cada um dos dois turnos. Isso significa que a proposta ainda poderá ser modificada, debatida e receber diferentes avaliações durante sua tramitação. Até que todas essas etapas sejam concluídas, não existe qualquer redução automática nos vencimentos do presidente, vice-presidente, ministros ou parlamentares. A iniciativa, portanto, abre uma nova discussão sobre responsabilidade fiscal, remuneração de autoridades e participação da classe política em eventuais períodos de contenção de despesas. Mais do que o valor economizado diretamente, o debate deverá se concentrar na possibilidade de criar uma regra permanente que associe o desempenho das contas públicas às condições financeiras dos próprios responsáveis pelas decisões políticas e orçamentárias do país.



