Assassino diz que se reunia com governador no Palácio e cita suposta entrega de propina

Um depoimento prestado à Polícia Federal acrescentou novas e graves acusações à investigação que apura possíveis relações entre corrupção, contratos públicos e o assassinato do empresário João Bosco Sobrinho Pereira, ocorrido em São Luís, no Maranhão. Condenado a 13 anos de prisão como autor do homicídio, Gilbson César Soares Cutrim Júnior afirmou que mantinha reuniões com o governador Carlos Brandão, do MDB, no Palácio dos Leões, sede do governo estadual. Além disso, alegou que teria levado valores supostamente ilícitos ao grupo político do governador dentro do prédio oficial. As declarações, contudo, ainda precisam ser confirmadas por provas independentes e são contestadas de maneira categórica por Brandão. Portanto, o relato deve ser tratado como uma acusação apresentada por um condenado, e não como comprovação definitiva da participação das autoridades citadas.
Assassino diz que se reunia com governador no Palácio dos Leões
Segundo Gilbson Cutrim, os encontros com Carlos Brandão teriam acontecido no Palácio dos Leões, localizado no Centro Histórico de São Luís. O condenado declarou à Polícia Federal que recolhia dinheiro e o transportava para integrantes do grupo governista, mencionando diretamente o chefe do Executivo estadual. Embora o depoente tenha afirmado que os valores eram entregues dentro da sede do governo, não foi demonstrado publicamente, até o momento, se existem registros de entrada, imagens, documentos bancários ou testemunhas capazes de confirmar essa versão. Além disso, o depoimento de Gilbson passou por mudanças ao longo dos anos, circunstância que será considerada pelos investigadores na avaliação de sua credibilidade. Ainda assim, as informações foram incorporadas a uma apuração mais ampla, na qual são examinadas suspeitas de organização criminosa, pagamento de propina, desvio de recursos públicos e interferência nas investigações.
Assassinato de empresário ocorreu em São Luís
O crime que deu origem ao caso aconteceu em 19 de agosto de 2022, dentro de um prédio comercial na capital maranhense. A vítima, João Bosco Sobrinho Pereira, de 46 anos, teria comparecido ao local para discutir a divisão de valores relacionados à liberação de aproximadamente R$ 778 mil pelo governo estadual. De acordo com informações reunidas pela Polícia Federal, o empresário atuaria como cobrador de pagamentos e teria participado de uma reunião envolvendo pessoas ligadas ao suposto esquema. Durante o encontro, João Bosco foi baleado por Gilbson Cutrim. Posteriormente, o atirador foi processado e condenado pela Justiça do Maranhão a 13 anos de prisão. Em sua versão mais recente, entretanto, Gilbson alegou que teria sido atraído para uma armadilha e que atirou por acreditar que seria morto. Essa justificativa não afastou a condenação, mas passou a ser analisada no contexto das novas acusações apresentadas à PF.
Daniel Brandão é apontado no depoimento e nega acusações
Gilbson também atribuiu participação nos fatos a Daniel Brandão, sobrinho do governador e presidente afastado do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão. Conforme o depoimento, Daniel teria participado da articulação da reunião que terminou no homicídio e, depois do crime, teria orientado a eliminação de possíveis provas. Além disso, a Polícia Federal investiga se o silêncio do condenado e de seus familiares teria sido negociado por meio de pagamentos. Daniel Brandão rejeita integralmente as acusações e afirma que jamais participou de tratativas envolvendo propina ou vantagem indevida. Ele sustenta, ainda, que foi ameaçado por familiares de Gilbson, que teriam tentado obter apoio financeiro em troca de não vinculá-lo ao caso. Segundo Daniel, um boletim de ocorrência foi registrado na época para documentar essas ameaças. Desse modo, as duas versões são incompatíveis e deverão ser confrontadas com documentos, mensagens, movimentações financeiras e outros elementos materiais.
Flávio Dino determinou afastamento no Tribunal de Contas
Em meio ao avanço das investigações, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o afastamento de Daniel Brandão da presidência do Tribunal de Contas do Maranhão pelo período de 180 dias. A medida foi adotada depois de a Polícia Federal apontar indícios de que o cargo poderia ter sido utilizado para dificultar a identificação de envolvidos e interferir nas apurações. Com isso, a presidência da Corte de Contas deverá ser exercida interinamente pelo vice-presidente Marcelo Tavares. Entretanto, o afastamento é uma decisão cautelar e não equivale a uma condenação. Daniel afirmou ter recebido a notícia com perplexidade, reafirmou sua inocência e declarou que cumprirá a ordem judicial enquanto utiliza os recursos disponíveis para exercer o direito de defesa. Paralelamente, também são investigadas possíveis fraudes em licitações, desvios de emendas parlamentares e irregularidades em contratos firmados com recursos públicos.
Carlos Brandão contesta relato e questiona competência do STF
O governador Carlos Brandão classificou como revoltante o fato de o depoimento de um condenado por homicídio ter ganhado destaque sem que, em sua avaliação, fossem apresentadas provas das acusações. Ele negou ter recebido dinheiro ilícito, rejeitou a alegação de que comandaria uma organização criminosa e afirmou que sua trajetória de aproximadamente 35 anos na vida pública foi construída com trabalho. Além disso, sua defesa questiona a competência do Supremo Tribunal Federal para conduzir uma investigação direcionada ao governador. O argumento apresentado é que governadores possuem foro para crimes comuns no Superior Tribunal de Justiça. Por essa razão, foi solicitado que o inquérito seja suspenso e encaminhado ao STJ ou submetido à análise da Procuradoria-Geral da República. A defesa também reclama não ter obtido acesso completo aos autos, ao mesmo tempo que trechos das decisões e investigações foram tornados públicos.
Investigação produz efeitos jurídicos e políticos no Maranhão
O caso ganhou forte dimensão política porque Carlos Brandão foi vice-governador de Flávio Dino antes de assumir o comando do Maranhão, mas os dois grupos romperam posteriormente e passaram a ocupar campos adversários na política estadual. Como consequência, as investigações passaram a ser utilizadas no debate eleitoral, enquanto aliados do governador levantam suspeitas de perseguição e adversários cobram esclarecimentos. Também são apuradas possíveis tentativas de interferência no andamento do inquérito, inclusive com a citação do senador Weverton Rocha, do PDT, que nega irregularidades. Nesse cenário, o fato de o assassino dizer que se reunia com o governador representa uma linha de investigação relevante, mas insuficiente, isoladamente, para estabelecer responsabilidade criminal. Caberá à Polícia Federal verificar a consistência do depoimento, encontrar elementos de confirmação e separar acusações politicamente exploradas de fatos comprováveis. Enquanto isso, Carlos Brandão, Daniel Brandão e os demais citados mantêm a presunção de inocência e o direito de apresentar suas versões às autoridades.



