Após a polêmica criada pelo STF, os nomes de Bonner, Boris e Boechat passaram a ser citados

William Bonner, Boris Casoy e Ricardo Boechat, três nomes de enorme reconhecimento no jornalismo brasileiro, voltaram ao centro de uma discussão que ganhou força no Supremo Tribunal Federal (STF). Os três são citados como exemplos de profissionais que exerceram a atividade jornalística sem possuir diploma específico de Jornalismo, justamente no momento em que ministros da Corte passaram a defender uma nova discussão sobre a exigência de formação universitária para a profissão. A polêmica reacende uma decisão tomada pelo próprio STF em 2009 e coloca em debate os limites entre qualificação profissional, liberdade de imprensa e direito à informação.
A discussão foi retomada principalmente após manifestações dos ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes, que demonstraram preocupação com o cenário atual da comunicação, marcado pela expansão das redes sociais, pela circulação de desinformação e pela atuação de pessoas que se apresentam como jornalistas sem necessariamente seguir critérios profissionais. Dino defendeu que a Corte volte a analisar a questão do diploma, enquanto Moraes também afirmou ser necessário discutir formas de regulamentação da atividade jornalística. Entretanto, a maioria dos ministros não demonstra disposição imediata para rever a decisão de 2009, o que revela que a proposta ainda está longe de representar uma mudança efetiva na legislação profissional.
É justamente neste ponto que os nomes de Bonner, Boris e Boechat ganham força no debate público. Embora tenham construído carreiras reconhecidas nacionalmente, os três seguiram trajetórias acadêmicas diferentes da graduação específica em Jornalismo, mostrando que a história da imprensa brasileira também foi construída por profissionais formados em outras áreas ou que ingressaram na comunicação por caminhos distintos. Por isso, utilizar esses exemplos permite questionar se um diploma específico deve ser considerado condição indispensável para o exercício da profissão ou se a competência jornalística deve ser avaliada por critérios mais amplos, como experiência, ética, responsabilidade e qualidade da informação produzida.
Bonner, Boris e Boechat reacendem debate sobre diploma
William Bonner é um dos casos mais conhecidos dessa discussão. O apresentador do Jornal Nacional possui formação em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda pela Universidade de São Paulo, mas não cursou a graduação específica de Jornalismo. Mesmo assim, construiu uma das carreiras mais importantes da televisão brasileira, tornando-se editor-chefe e apresentador do principal telejornal da TV Globo durante décadas.
Boris Casoy também aparece entre os profissionais frequentemente lembrados quando o assunto é a formação de jornalistas que não passaram por uma graduação específica na área. Sua trajetória foi construída em diferentes veículos de comunicação e consolidada principalmente na televisão, onde se tornou conhecido pela apresentação de telejornais e por comentários políticos. Dessa forma, sua carreira passou a ser utilizada como referência para mostrar que a experiência profissional e a capacidade de comunicação também tiveram papel importante na formação de grandes nomes da imprensa brasileira.
Ricardo Boechat, que morreu em 2019, representa outro exemplo de profissional cuja trajetória ultrapassou a exigência de uma formação universitária específica. Ele se tornou um dos jornalistas mais influentes do país, atuando em jornais, rádio e televisão, conquistando três Prêmios Esso e sendo reconhecido em pesquisas como um dos jornalistas mais admirados do Brasil. Sua história ajuda a demonstrar que o jornalismo brasileiro possui uma tradição construída por profissionais de diferentes formações e experiências, o que torna a discussão sobre diploma mais complexa do que simplesmente estabelecer uma exigência acadêmica.
STF volta a discutir a exigência de diploma para jornalistas
A origem jurídica da controvérsia está em uma decisão do STF de 2009, quando a Corte derrubou a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão. Naquele julgamento, prevaleceu o entendimento de que a exigência poderia restringir a liberdade de expressão e o livre exercício da atividade jornalística, estabelecendo uma interpretação que permanece vigente há aproximadamente 17 anos. Agora, ministros como Flávio Dino e Alexandre de Moraes entendem que as transformações ocorridas no ambiente de comunicação justificam uma nova reflexão sobre o assunto.
Flávio Dino argumenta que o cenário atual apresenta desafios que não existiam da mesma maneira quando a decisão foi tomada. Segundo a argumentação apresentada pelo ministro, a multiplicação de blogs, canais digitais e perfis que produzem conteúdo jornalístico tornou mais difícil distinguir profissionais comprometidos com padrões éticos de pessoas que utilizam a denominação de jornalista sem assumir responsabilidades equivalentes. Ao mesmo tempo, entidades como a Associação Nacional de Jornais e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo demonstraram preocupação com a possibilidade de uma mudança conduzida no contexto atual, especialmente por causa das discussões recentes envolvendo sigilo de fonte e liberdade de imprensa.
O ponto mais delicado está justamente na tentativa de encontrar um equilíbrio entre regulamentação e liberdade. A Federação Nacional dos Jornalistas defende a retomada da exigência de formação específica, entendendo que critérios profissionais podem contribuir para fortalecer a atividade, enquanto outras organizações consideram que o diploma não deve ser utilizado como único mecanismo para definir quem pode produzir jornalismo. Assim, uma eventual mudança precisaria ser construída com bastante cuidado, porque uma regra criada para aumentar a qualidade da informação também poderia produzir efeitos sobre a pluralidade de vozes e sobre profissionais que já atuam na área por caminhos diferentes.
Jornalismo sem diploma pode deixar de existir?
A discussão envolvendo Bonner, Boris e Boechat mostra que a questão não pode ser reduzida à pergunta sobre quem possui ou não um diploma. O verdadeiro debate envolve quais critérios devem ser utilizados para reconhecer o exercício profissional do jornalismo e quais garantias precisam ser oferecidas a quem produz informação de interesse público. Caso uma nova exigência seja criada, deverão ser considerados os profissionais que já atuam no mercado, suas experiências acumuladas e as diferentes formas pelas quais a atividade jornalística passou a ser exercida na era digital.
Outro ponto relevante é que a qualidade do jornalismo não depende exclusivamente de um certificado universitário, embora a formação acadêmica possa oferecer conhecimento técnico, ético e metodológico importante para o profissional. O desafio está em estabelecer mecanismos que combatam a desinformação e protejam a credibilidade da imprensa sem permitir que uma exigência formal seja transformada em instrumento de controle sobre quem pode ou não informar a sociedade. Por enquanto, a discussão permanece no campo do debate institucional, e os exemplos de Bonner, Boris e Boechat mostram por que uma eventual mudança precisará ser analisada com profundidade antes que qualquer nova regra seja estabelecida.



