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Jair Bolsonaro conseguia prender a atenção de uma multidão, mas Flávio não vem tendo tanto sucesso

A fórmula de Bolsonaro para se comunicar diretamente com a militância está encontrando dificuldades para ser reproduzida por Flávio Bolsonaro na campanha presidencial de 2026. As transmissões ao vivo, que se tornaram uma das principais marcas da comunicação de Jair Bolsonaro, foram adotadas pelo filho como uma tentativa de criar proximidade com o eleitorado e manter mobilizada a base conservadora. Entretanto, a audiência registrada até agora vem sendo considerada insuficiente por aliados, aumentando a preocupação sobre a capacidade de Flávio de repetir o desempenho digital que marcou a trajetória política do pai.

A estratégia tinha uma lógica bastante clara, pois as lives permitem que o candidato fale diretamente com seus apoiadores, reaja rapidamente aos acontecimentos e estabeleça uma comunicação sem a intermediação tradicional da imprensa. Jair Bolsonaro transformou esse modelo em uma ferramenta política relevante durante seu período no Palácio do Planalto, especialmente com transmissões semanais que reuniam seguidores em torno de comentários sobre política, governo e acontecimentos do momento. Agora, contudo, Flávio tenta adaptar essa fórmula à própria candidatura, em um cenário no qual precisa construir uma identidade eleitoral que não dependa exclusivamente da imagem do pai.

O problema ganhou dimensão justamente porque a campanha de Flávio começou a enfrentar sinais de dificuldade na mobilização presencial e digital. Na estreia da campanha, eventos realizados no Rio de Janeiro e em Minas Gerais registraram público abaixo do que costumava ser observado em grandes manifestações ligadas a Jair Bolsonaro, enquanto as transmissões virtuais também não alcançaram o impacto esperado. Assim, a questão deixou de ser apenas uma escolha de comunicação e passou a representar um desafio estratégico para uma candidatura que precisa ampliar sua presença nacional antes da consolidação da disputa pelo segundo turno.

Fórmula de Bolsonaro é testada por Flávio na campanha

A aposta nas lives não surgiu por acaso e já vinha sendo preparada durante a pré-campanha de Flávio Bolsonaro. O objetivo era transformar as transmissões em um canal permanente de comunicação com eleitores, permitindo que o senador apresentasse propostas, comentasse crises e respondesse aos adversários sem depender exclusivamente de entrevistas e eventos públicos. Além disso, o formato deveria funcionar como uma maneira de aproximar Flávio da base bolsonarista e, ao mesmo tempo, construir uma identidade própria para sua candidatura.

Nos últimos meses, o modelo foi utilizado em diferentes situações, incluindo transmissões relacionadas a acontecimentos políticos e até programas de entretenimento com participação de aliados. Flávio também apareceu em live de última hora para comentar a decisão do ministro Alexandre de Moraes que suspendeu temporariamente suas visitas ao pai, ocasião em que a comunicação mais informal foi explorada pela campanha. Entretanto, o desempenho abaixo das expectativas mostra que copiar o formato não significa necessariamente reproduzir a influência política construída por Jair Bolsonaro ao longo de anos.

A diferença pode ser explicada, em parte, pelo relacionamento que Jair Bolsonaro construiu com seu público antes mesmo de chegar à Presidência da República. Durante anos, o ex-presidente consolidou uma comunicação baseada em mensagens frequentes, linguagem direta e forte identificação com seus apoiadores, criando uma audiência que acompanhava suas transmissões como parte da rotina política. Flávio, por outro lado, precisa conquistar esse mesmo nível de atenção enquanto disputa espaço com outros candidatos de direita e tenta equilibrar a herança política da família com uma imagem que possa alcançar eleitores ainda indecisos.

Baixa audiência das lives preocupa aliados de Flávio Bolsonaro

As dificuldades de audiência ganharam relevância porque a campanha de Flávio pretendia utilizar as redes sociais como uma das principais ferramentas para alcançar o eleitorado fora dos grandes eventos. Segundo levantamentos divulgados nesta semana, as lives semanais tiveram média de aproximadamente 187 mil visualizações no YouTube, número considerado abaixo das expectativas de aliados que esperavam um alcance maior. Embora a quantidade de visualizações não determine sozinha o resultado eleitoral, o desempenho pode indicar que a capacidade de mobilização digital ainda não acompanha o tamanho da base bolsonarista construída pelo ex-presidente.

O cenário também precisa ser analisado à luz das pesquisas eleitorais, nas quais Flávio aparece competitivo, mas ainda atrás de Lula em diferentes levantamentos. Na pesquisa Quaest divulgada em agosto, Lula tinha 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 31% de Flávio, enquanto em uma eventual segunda rodada os dois apareciam em situação de empate técnico, com 43% para o petista e 40% para o senador. Portanto, a candidatura do PL possui espaço para crescer, mas precisa transformar presença digital, mobilização política e exposição nacional em votos efetivos.

Outro obstáculo está relacionado ao equilíbrio entre representar o legado de Jair Bolsonaro e apresentar Flávio como um candidato capaz de caminhar com as próprias pernas. A campanha começou tentando construir uma imagem mais moderada para alcançar eleitores de centro, mas posteriormente aumentou o tom conservador e recolocou Jair Bolsonaro no centro do discurso, movimento que revela a dificuldade de conciliar diferentes públicos. Dessa forma, as lives acabam funcionando como um reflexo do dilema eleitoral, pois precisam agradar a militância fiel sem limitar o alcance da candidatura entre eleitores que ainda não decidiram seu voto.

Flávio precisa superar a sombra política do pai

A dificuldade enfrentada pela fórmula de Bolsonaro mostra que a transferência de popularidade entre familiares não acontece automaticamente, principalmente quando a comunicação política depende de uma relação pessoal construída durante muitos anos. Flávio possui a vantagem de carregar o sobrenome Bolsonaro e contar com o apoio declarado do pai, que já o apresentou publicamente como seu representante na disputa presidencial, mas precisa transformar esse patrimônio político em uma conexão própria com o eleitor. Ao mesmo tempo, a campanha terá de ampliar o alcance das lives e encontrar formatos capazes de gerar maior engajamento sem abandonar a identidade bolsonarista que sustenta sua candidatura.

A questão se torna ainda mais importante porque a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão começa em 28 de agosto, criando uma nova etapa na disputa pela atenção dos brasileiros. Lula terá vantagem significativa no tempo de propaganda, enquanto Flávio precisará utilizar as redes sociais, os debates, os eventos presenciais e a estrutura partidária para compensar essa diferença de exposição tradicional. Por isso, se a fórmula de Bolsonaro não conseguir engrenar com Flávio nas próximas semanas, a campanha poderá ser obrigada a reformular sua estratégia digital justamente quando a eleição entra em uma fase decisiva.

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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