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Candidato ao governo do Rio Grande do Norte causou polêmica ao dividir palanque com Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou sua agenda eleitoral no Rio Grande do Norte ao lado de Cadu Xavier, candidato do PT ao governo estadual que enfrenta questionamentos de órgãos de controle sobre um reajuste concedido a auditores fiscais quando ocupava cargo na administração estadual. O encontro ocorreu na quinta-feira, 20 de agosto, em Natal, e ganhou repercussão justamente pela situação envolvendo o candidato apoiado pelo presidente. Durante o ato, Lula pediu votos para Cadu e apresentou o aliado como alguém que teria capacidade para comandar o estado.

A presença de Lula no palanque ocorre em um momento decisivo para a disputa pelo governo potiguar, que passou a receber atenção especial do PT com o início da campanha eleitoral de 2026. Cadu Xavier, conhecido politicamente como Cadu de Lula, foi secretário da Fazenda durante o governo de Fátima Bezerra e deixou a função em março deste ano para disputar a sucessão estadual. Por isso, sua experiência na administração pública é apresentada pela campanha como um dos principais argumentos para conquistar o eleitorado, enquanto adversários utilizam justamente sua passagem pela área econômica para levantar questionamentos sobre a situação fiscal do Rio Grande do Norte.

O ponto mais delicado está relacionado a uma medida adotada em 2021, quando Cadu comandava a Secretaria Estadual de Tributação. Uma resolução interadministrativa elevou de R$ 97,24 para R$ 108,91 o valor da Unidade da Parcela Variável, componente da remuneração dos auditores fiscais, categoria da qual Cadu é servidor concursado. O procedimento passou a ser analisado pelo Tribunal de Contas do Estado e pelo Ministério Público de Contas, que levantaram dúvidas sobre a legalidade do ato, a existência de previsão orçamentária e a forma utilizada para conceder o reajuste.

Lula e Cadu Xavier no centro da disputa eleitoral

A participação de Lula na campanha de Cadu Xavier demonstra a importância que o PT atribui ao Rio Grande do Norte para a manutenção de seu espaço político no Nordeste. No evento realizado em Natal, o presidente não apenas apareceu ao lado do candidato, como também fez um pedido direto de votos, associando sua própria liderança à candidatura estadual. Segundo o discurso apresentado no ato, Cadu foi descrito como alguém preparado para assumir o governo, numa tentativa de transformar a experiência administrativa acumulada em vantagem eleitoral.

Cadu construiu sua trajetória profissional no serviço público e chegou a ocupar posições importantes na área econômica do governo estadual. Auditor fiscal de carreira, ele passou pela estrutura de fiscalização antes de assumir funções de comando na Secretaria de Tributação e, posteriormente, na Secretaria da Fazenda, onde permaneceu até março de 2026. Dessa maneira, a candidatura ao governo foi construída sobre a imagem de um gestor com conhecimento técnico das contas públicas, mas essa mesma experiência passou a ser usada pelos adversários para cobrar explicações sobre decisões tomadas durante sua passagem pelo Executivo.

O episódio do reajuste ganhou relevância porque a medida foi adotada em 2021, período marcado por restrições fiscais e pelos efeitos econômicos da pandemia de Covid-19. Segundo documentos e análises técnicas divulgadas sobre o processo, o aumento da Unidade da Parcela Variável produziu impacto financeiro estimado em cerca de R$ 13,16 milhões, e não bilhões, como aparece em algumas referências equivocadas sobre o caso. O processo ainda não teve julgamento definitivo, portanto não é correto tratar as suspeitas levantadas pelos órgãos de controle como uma condenação ou como prova de irregularidade já reconhecida de forma definitiva.

O reajuste dos auditores fiscais que entrou na campanha

A controvérsia começou com a Resolução Interadministrativa nº 355/2021, assinada por Cadu Xavier e pela então secretária de Administração, Virgínia Ferreira. Técnicos do TCE questionaram a utilização de uma resolução administrativa para modificar uma parcela da remuneração dos auditores fiscais, argumentando que a alteração deveria ter sido respaldada por legislação específica. Também foram levantadas dúvidas sobre os estudos de impacto financeiro e sobre a disponibilidade orçamentária necessária para suportar a despesa.

Outro aspecto analisado é a possível incompatibilidade da medida com regras de responsabilidade fiscal vigentes naquele período. A área técnica do Tribunal de Contas apontou problemas relacionados à demonstração do impacto financeiro e à existência de recursos suficientes para cobrir integralmente a despesa prevista. Como o processo continua em tramitação, a situação jurídica de Cadu permanece em aberto e sua defesa ainda precisa ser considerada na avaliação completa do caso.

O próprio candidato já contestou as críticas feitas por adversários e classificou as acusações como uma tentativa de exploração política do processo. Durante debates eleitorais, o tema voltou a ser apresentado por concorrentes como argumento para questionar a capacidade de Cadu de administrar as finanças estaduais, justamente porque ele ocupou posições estratégicas na área econômica do governo Fátima Bezerra. Assim, uma discussão originalmente técnica sobre remuneração de servidores acabou transformada em um dos pontos de confronto da campanha pelo governo potiguar.

Cadu Xavier enfrenta desafio fiscal no Rio Grande do Norte

O caso do reajuste não é o único elemento que pode influenciar a avaliação do eleitor sobre Cadu Xavier. A situação fiscal do Rio Grande do Norte também se tornou tema relevante na campanha, especialmente porque o candidato passou vários anos responsável por áreas diretamente relacionadas à arrecadação, despesas, folha de pagamento e equilíbrio das contas estaduais. Ao defender novas medidas de controle das despesas com pessoal, Cadu passou a ser questionado sobre os resultados obtidos durante o período em que esteve no comando da Fazenda.

Esse cenário cria uma situação politicamente complexa para o candidato apoiado por Lula. De um lado, sua experiência como secretário pode ser apresentada como conhecimento prático dos problemas enfrentados pelo estado e como preparação para ocupar o Palácio do Governo; de outro, decisões tomadas durante sua gestão passaram a ser revisitadas pelos adversários em busca de explicações. Portanto, o desempenho de Cadu na eleição dependerá não apenas do peso político de Lula, mas também da capacidade de responder aos questionamentos sobre gestão, contas públicas e decisões administrativas.

A entrada de Lula na campanha, por sua vez, mostra que o presidente pretende usar sua popularidade para fortalecer candidaturas aliadas em estados estratégicos do Nordeste. No Rio Grande do Norte, essa estratégia ganha uma dimensão particular porque Cadu aparece como representante da continuidade do grupo político ligado à governadora Fátima Bezerra. Entretanto, a associação direta com Lula também faz com que eventuais críticas à administração estadual sejam incorporadas ao debate político nacional, tornando a disputa potiguar parte de uma batalha mais ampla pela influência do PT nas eleições de 2026.

Apoio de Lula será suficiente para mudar o cenário?

O palanque compartilhado por Lula e Cadu Xavier, portanto, deve ser interpretado como uma demonstração de força eleitoral, mas não elimina os problemas que precisam ser esclarecidos durante a campanha. O processo envolvendo o reajuste dos auditores fiscais continua sem decisão definitiva, enquanto a situação fiscal do Rio Grande do Norte deverá permanecer entre os principais assuntos discutidos pelos candidatos. Nesse contexto, caberá ao eleitor avaliar as acusações, as explicações apresentadas pela defesa e os resultados efetivamente obtidos na administração estadual antes de formar sua opinião.

A presença de Lula pode ampliar a visibilidade de Cadu Xavier e oferecer ao candidato uma importante plataforma política, principalmente em um estado onde o presidente mantém influência eleitoral. Ainda assim, o apoio nacional precisará ser convertido em confiança local, especialmente diante dos questionamentos sobre a gestão fiscal e sobre o reajuste concedido aos auditores durante a pandemia. A disputa pelo governo do Rio Grande do Norte começa, dessa forma, marcada pela tentativa de Cadu de transformar sua experiência administrativa em credencial eleitoral enquanto seus adversários procuram transformar o mesmo passado em fonte de dúvidas sobre sua capacidade de governar.

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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