Os dois grandes favoritos à Presidência da República lidam com sérios problemas nas campanhas

Lula e Flávio Bolsonaro enfrentam alta rejeição justamente no momento em que a corrida presidencial de 2026 começa a ganhar ritmo, criando um cenário de forte tensão política a menos de dois meses do primeiro turno. Os dois aparecem como os principais nomes da disputa, mas ainda encontram dificuldades para ampliar o apoio para fora de seus grupos mais fiéis. Nesse contexto, a eleição começa marcada muito mais pela resistência de parte do eleitorado aos adversários do que pela apresentação de propostas detalhadas para o futuro do país.
A fotografia mais recente do Datafolha ajuda a dimensionar esse cenário, pois Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro registra 33%. Em uma eventual segunda etapa entre os dois, o petista teria 47% contra 43% do senador, diferença que permanece dentro de um quadro competitivo. O levantamento ouviu 2.058 eleitores em 128 cidades nos dias 18 e 19 de agosto, mostrando que a vantagem numérica de Lula existe, mas não representa uma situação confortável para o atual presidente.
A rejeição, entretanto, é o dado que mais chama atenção na largada da campanha. Segundo o mesmo levantamento, 46% dos entrevistados afirmam que não votariam em Flávio Bolsonaro de jeito nenhum, enquanto 45% fazem a mesma afirmação em relação a Lula. Portanto, a disputa tende a ser influenciada pela capacidade de cada campanha de reduzir a resistência ao próprio candidato e, simultaneamente, ampliar a rejeição ao adversário.
Lula e Flávio Bolsonaro entram em uma disputa marcada pela rejeição
A campanha oficial começou em 16 de agosto, e os primeiros movimentos de Lula e Flávio Bolsonaro indicam estratégias bastante diferentes, embora ambos estejam recorrendo intensamente ao passado político. Lula tem procurado apresentar sua trajetória, defender resultados de seus governos e estabelecer uma comparação direta com o período de Jair Bolsonaro. Flávio, por sua vez, vem utilizando a imagem do pai como principal ativo eleitoral e tenta transformar a candidatura em uma continuidade do bolsonarismo.
No caso de Lula, a experiência acumulada em campanhas presidenciais é um fator relevante, já que esta é sua sétima disputa pelo Palácio do Planalto em dez eleições realizadas desde a redemocratização. O presidente foi derrotado nas três primeiras tentativas, venceu as eleições de 2002, 2006 e 2022 e agora busca um novo mandato em um ambiente no qual sua popularidade não reproduz os níveis de outras fases de sua carreira. Por isso, sua campanha deverá ser pressionada a transformar a vantagem inicial nas pesquisas em apoio efetivo entre eleitores independentes.
Flávio Bolsonaro enfrenta um desafio diferente, pois tenta ocupar o espaço político deixado pelo pai sem deixar de carregar o peso da rejeição associada ao sobrenome Bolsonaro. O primeiro ato de sua campanha ocorreu em Copacabana, no Rio de Janeiro, onde a mobilização ficou muito abaixo do público reunido por Jair Bolsonaro em evento realizado no mesmo local em 2022. Além disso, a ausência de figuras importantes da direita na atividade foi interpretada como um sinal de que a candidatura ainda precisa consolidar sua capacidade de mobilização dentro do próprio campo político.
Lula e Flávio Bolsonaro ainda precisam convencer o eleitor indeciso
Um dos principais problemas para os dois candidatos está no fato de que uma parcela significativa do eleitorado ainda não demonstra uma preferência consolidada. Na pesquisa espontânea do Datafolha, quando os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados, Lula aparece com 32% e Flávio com 19%, enquanto uma parcela relevante permanece sem definição. Esse comportamento indica que existe espaço para mudanças durante a campanha, principalmente entre eleitores que ainda não escolheram um nome de maneira definitiva.
A situação também ajuda a explicar por que a ausência de propostas detalhadas pode se tornar um problema para os favoritos. Segundo análise publicada pela VEJA, temas como segurança pública, contas públicas e outras questões estruturais do país ainda não ocupam o espaço que poderiam ocupar nos discursos dos dois principais candidatos. Em vez disso, a campanha vem sendo marcada por ataques, comparações com governos anteriores e tentativas de explorar denúncias que possam atingir a imagem do adversário.
Entre os assuntos utilizados na disputa está o caso envolvendo Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente, alvo de inquéritos no Supremo Tribunal Federal por suspeitas relacionadas a tráfico de influência. O episódio passou a ser explorado por Flávio Bolsonaro como instrumento de desgaste contra a campanha petista, enquanto aliados de Lula procuram rebater a ofensiva lembrando investigações e controvérsias que atingem o campo bolsonarista. Dessa forma, denúncias e escândalos passaram a ocupar um espaço importante na estratégia eleitoral, mesmo enquanto problemas concretos da população continuam esperando respostas mais detalhadas.
O que pode decidir a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro
A avaliação de especialistas em pesquisas eleitorais reforça que a rejeição poderá ter um peso decisivo no resultado de outubro. Segundo dirigentes de institutos ouvidos pelo Terra, a disputa tende a ser menos determinada pela adesão entusiasmada a propostas e mais pela capacidade de cada candidato de explorar a rejeição existente contra o adversário. Nesse ambiente, corrupção, segurança pública e economia aparecem entre os assuntos com potencial para alterar a percepção dos eleitores ao longo das próximas semanas.
A economia, em particular, poderá representar uma variável importante para Lula porque o presidente será apresentado como candidato à continuidade do governo. Preços dos alimentos, endividamento das famílias e percepção sobre a situação financeira do país podem influenciar diretamente o voto, enquanto medidas sociais e econômicas adotadas pelo governo serão utilizadas para defender a permanência do atual grupo no poder. Para Flávio Bolsonaro, por outro lado, a estratégia será transformar o desgaste do governo em votos sem permitir que a rejeição ao bolsonarismo ultrapasse o limite necessário para impedir sua chegada ao segundo turno.
O cenário atual, portanto, revela uma eleição presidencial competitiva, mas ainda aberta a mudanças significativas. Lula mantém vantagem nas pesquisas de primeiro turno e também aparece numericamente à frente em um eventual segundo turno, porém Flávio Bolsonaro reduziu parte da distância e possui uma base eleitoral consolidada. Ao mesmo tempo, os índices elevados de rejeição dos dois mostram que a principal batalha poderá ser travada não apenas para conquistar novos eleitores, mas para convencer quem hoje considera votar no adversário a escolher outra alternativa.
A largada da eleição de 2026 deixa, assim, uma pergunta central para os próximos meses: quem conseguirá apresentar uma imagem mais aceitável para o eleitor que não pertence a nenhuma das duas grandes bolhas políticas. Enquanto Lula precisa administrar o desgaste de seu governo e defender seu legado, Flávio Bolsonaro precisa provar que consegue ampliar o alcance do sobrenome que sustenta sua candidatura. Até o momento, a corrida presidencial permanece sob tensão, e a disputa entre os dois tende a ser definida pela capacidade de reduzir rejeições, apresentar propostas concretas e conquistar o eleitor que ainda não decidiu seu voto.



