No Rio de Janeiro, Lula falou sobre parcerias em minerais críticos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou neste sábado, 22 de agosto de 2026, que não possui preferência entre Estados Unidos, China, Rússia, França e Inglaterra quando o assunto é estabelecer parcerias estratégicas com o Brasil. A declaração foi feita durante um ato de campanha em Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro, em um momento de forte tensão comercial entre Brasília e Washington e de crescente disputa geopolítica entre grandes potências. Para Lula, o objetivo brasileiro não deve ser escolher um lado, mas preservar a autonomia nacional e buscar acordos que atendam aos interesses do país.
A fala ocorreu durante um trecho do discurso dedicado aos chamados minerais críticos e às terras raras, recursos considerados estratégicos para setores como fabricação de baterias, veículos elétricos, semicondutores e equipamentos de alta tecnologia. Lula afirmou que o Brasil possui grandes reservas desses materiais, mas ainda depende de parceiros estrangeiros para ampliar sua capacidade de exploração e processamento. Dessa forma, a discussão sobre Estados Unidos, China e Rússia foi inserida em uma estratégia mais ampla de defesa de investimentos, transferência tecnológica e formação de mão de obra qualificada.
O posicionamento também ganha relevância por causa da recente aproximação entre Lula e Donald Trump, depois de meses de tensão provocados pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Em uma conversa telefônica realizada na sexta-feira, 21 de agosto, os dois presidentes discutiram comércio, segurança e conflitos internacionais, e as negociações sobre as tarifas deverão ser retomadas. Ao mesmo tempo, Lula afirmou que sugeriu a Trump uma conversa com Vladimir Putin e Xi Jinping para tratar de conflitos e buscar caminhos diplomáticos para a paz.
Lula diz que não tem preferência entre grandes potências
Ao declarar que não tem preferência entre Estados Unidos, China, Rússia, França e Inglaterra, Lula reforçou uma visão de política externa baseada na diversificação das relações internacionais. O presidente argumentou que o Brasil deve conversar com diferentes países e aproveitar oportunidades de cooperação sem ficar subordinado aos interesses de uma única potência. Essa postura representa uma tentativa de ampliar a margem de manobra diplomática brasileira justamente quando a rivalidade entre Washington e Pequim influencia comércio, tecnologia, energia e segurança em diferentes regiões do planeta.
A questão dos minerais críticos ajuda a explicar por que esse posicionamento ganhou espaço no discurso presidencial. Esses recursos são considerados estratégicos para a transição energética e para a indústria tecnológica, enquanto a China ocupa posição de destaque mundial na exploração, processamento e produção relacionados às terras raras. Segundo Lula, a disputa entre chineses e americanos por esse setor está entre os fatores que ajudam a explicar o atual embate comercial entre as duas maiores economias do mundo.
O desafio brasileiro, portanto, está em transformar a disponibilidade de recursos naturais em capacidade industrial. Lula afirmou que pretende formar profissionais qualificados para que o país possa explorar suas riquezas minerais com maior autonomia no futuro, reduzindo a dependência de empresas e tecnologias estrangeiras. A proposta pode representar uma mudança importante no modelo tradicional de exportação de matérias-primas, desde que investimentos, infraestrutura, pesquisa e qualificação profissional sejam efetivamente ampliados.
Brasil tenta equilibrar relações com EUA, China e Rússia
A declaração de Lula também deve ser analisada dentro do momento delicado vivido nas relações entre Brasil e Estados Unidos. Depois de semanas de tensão, o telefonema com Trump abriu uma nova possibilidade de negociação sobre as tarifas norte-americanas, e representantes dos dois governos deverão voltar a conversar nos próximos dias. Ainda não existe, contudo, um acordo definitivo que elimine as barreiras comerciais, o que significa que a reaproximação precisa ser acompanhada com cautela.
Ao mesmo tempo, o Brasil mantém relações econômicas relevantes com a China e participa do Brics, grupo que ganhou importância na estratégia de diversificação das parcerias internacionais brasileiras. A China é um dos principais parceiros comerciais do país, enquanto Estados Unidos e países europeus também possuem participação expressiva nos investimentos, no comércio e na transferência de tecnologia. Por isso, uma política externa baseada exclusivamente em alinhamento com uma potência poderia limitar as alternativas brasileiras em setores considerados estratégicos.
A tentativa de manter portas abertas também aparece na política brasileira de tecnologia. Nesta semana, o governo anunciou investimentos bilionários em inteligência artificial, distribuindo projetos entre fornecedores chineses e americanos, com o objetivo declarado de ampliar a capacidade nacional e evitar dependência de um único país. O movimento demonstra que a estratégia de diversificação não está restrita ao discurso político, pois também está sendo aplicada em áreas como computação avançada, semicondutores e infraestrutura tecnológica.
Lula defende autonomia e rejeita escolha entre potências
O discurso de Lula acontece ainda em meio a uma preocupação crescente com a autonomia brasileira diante das disputas internacionais. No mesmo ato realizado no Rio de Janeiro, o presidente afirmou que pretende recuperar a indústria de defesa nacional caso seja reeleito e ressaltou a necessidade de o Brasil estar preparado para proteger suas fronteiras e seus interesses. Segundo Lula, o fortalecimento militar não teria como objetivo provocar conflitos, mas garantir que o país seja respeitado internacionalmente.
A posição apresentada pelo presidente, portanto, combina diplomacia, interesses comerciais e busca por independência tecnológica. Ao dizer que prefere todos os parceiros, Lula tenta transmitir ao eleitor a ideia de que o Brasil pode negociar simultaneamente com Washington, Pequim, Moscou e outras capitais sem abrir mão de sua soberania. O resultado dessa estratégia, entretanto, dependerá da capacidade do governo de transformar recursos naturais, relações comerciais e parcerias internacionais em desenvolvimento tecnológico e industrial dentro do próprio país.
No contexto da eleição de 2026, a declaração também possui peso político porque Lula procura apresentar sua política externa como uma defesa dos interesses nacionais diante da disputa entre grandes potências. A estratégia poderá ser questionada por adversários que defendem maior aproximação com determinados países ou que considerem arriscado manter relações equilibradas com governos que possuem interesses conflitantes. Ainda assim, ao afirmar que não tem preferência entre Estados Unidos, China e Rússia, Lula deixa clara sua aposta em uma política externa pragmática, na qual o Brasil tenta negociar com diferentes lados e evitar que a rivalidade entre as potências determine sozinho os rumos da economia e da diplomacia brasileira.



