Como as políticas de Milei estão inspirando candidatos de direita no Brasil

A experiência do presidente argentino Javier Milei deixou de ser apenas um tema debatido na política do país vizinho e passou a ocupar espaço relevante na campanha eleitoral brasileira. Entre candidatos à Presidência, aos governos estaduais e ao Congresso, propostas como redução de despesas públicas, privatizações, diminuição de impostos e desregulamentação aparecem com frequência cada vez maior. Em alguns casos, a referência ao governo argentino é assumida pelos próprios políticos; em outros, a influência surge na formulação de medidas semelhantes às adotadas por Milei desde que chegou à Casa Rosada. O movimento revela uma disputa de ideias sobre o tamanho do Estado, o controle das contas públicas e o papel da iniciativa privada na economia. Ao mesmo tempo, coloca no centro da eleição brasileira uma questão que deverá ganhar ainda mais espaço durante a campanha: até que ponto as medidas adotadas na Argentina podem ser adaptadas à realidade econômica e institucional do Brasil?
Um dos principais exemplos é Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, que apresentou em seu plano de governo o chamado “Tesouraço”. A proposta é apresentada como uma estratégia para reduzir o tamanho da máquina pública e criar condições para uma futura diminuição de impostos. Entre as medidas estão a redução de pelo menos dez ministérios, a diminuição de cargos comissionados e despesas administrativas, o enfrentamento aos chamados supersalários e uma nova agenda de privatizações e desestatizações. O programa também prevê a substituição do atual modelo fiscal por uma regra voltada à estabilização e posterior redução da dívida pública. A lógica guarda semelhança com a estratégia defendida por Milei, que colocou o controle dos gastos no centro de seu programa econômico. A aproximação aparece ainda na proposta de revisar normas administrativas, tributárias, previdenciárias e trabalhistas, além da criação de um amplo processo de simplificação regulatória. A imagem utilizada também remete ao presidente argentino: Flávio passou a usar um broche em formato de tesoura, adaptação do símbolo associado à campanha de Milei.
A influência argentina, porém, não se limita ao candidato presidencial. Renan Santos, do Missão, afirmou que pretende concentrar mudanças econômicas consideradas difíceis logo no início de um eventual governo. Seu plano inclui reforma administrativa, revisão do sistema previdenciário, contenção de despesas, redução de supersalários e flexibilização das relações de trabalho. O documento também prevê maior participação privada em áreas de infraestrutura por meio de concessões e parcerias público-privadas. Em declarações públicas, Renan citou diretamente Milei como referência e afirmou que pretende apresentar aos eleitores uma estratégia semelhante à adotada pelo argentino. Nos estados, a agenda liberal também aparece. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição, defende responsabilidade fiscal, eficiência nos gastos, atração de investimentos e continuidade de concessões. O governador já recebeu Milei no Palácio dos Bandeirantes e discutiu temas como despesas públicas, impostos, desregulamentação e investimentos privados. Apesar das convergências, o plano paulista mantém forte participação do Estado em áreas como saúde, educação, infraestrutura e desenvolvimento social.
No Paraná, Sergio Moro (PL) transformou a redução da burocracia em uma das bandeiras de sua campanha ao governo estadual. O candidato afirma que pretende revisar regras e cobranças que, segundo sua avaliação, dificultam investimentos e o ambiente empresarial. Moro também já declarou admiração pelas medidas adotadas por Milei para reduzir estruturas administrativas e controlar despesas públicas. Em São Paulo, Ricardo Salles (Novo), candidato ao Senado, segue linha semelhante ao defender redução do tamanho do Estado, desregulamentação e privatizações. Outro nome que levou a inspiração argentina para o Congresso foi Nikolas Ferreira (PL-MG), que apresentou a chamada PEC da Responsabilidade. A proposta estabelece mecanismos automáticos de contenção de despesas caso determinados indicadores fiscais apresentem deterioração. Em uma etapa posterior, poderia haver redução nos salários de autoridades dos principais poderes. Nikolas reconheceu publicamente que a ideia foi inspirada em uma proposta apresentada por Milei na Argentina, conhecida como “grillete fiscal”, que prevê medidas automáticas diante de dificuldades persistentes nas contas públicas.
A agenda de Milei também encontra pontos de contato com o programa de Romeu Zema, do Novo. O plano do candidato prevê um “choque fiscal” nas despesas governamentais, reforma da Previdência, revisão do crescimento de gastos obrigatórios e uma ampla reforma administrativa. Também estão previstas mudanças na estrutura de ministérios, cargos comissionados, autarquias e fundações, além de privatizações e ampliação de parcerias com o setor privado. As propostas apresentam semelhanças com medidas implementadas por Milei, embora Zema já tenha demonstrado divergências em relação ao estilo político do argentino. A diferença ficou mais evidente após declarações feitas por Milei durante sua participação na convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro. Zema afirmou concordar com algumas das críticas apresentadas pelo argentino, mas fez ressalvas quanto à maneira como foram expressadas. O episódio mostra que a aproximação entre políticos brasileiros e Milei não significa necessariamente uma identificação completa com seu governo, mas principalmente uma convergência em torno de determinadas ideias econômicas.
Com a campanha avançando, o modelo argentino tende a permanecer no centro das discussões entre os candidatos brasileiros. A redução de gastos, a revisão de estruturas públicas, a simplificação de regras e a participação maior do setor privado aparecem como alternativas defendidas por diferentes grupos políticos, mas cada candidatura apresenta sua própria interpretação sobre como essas medidas poderiam funcionar no Brasil. A experiência de Milei, portanto, tornou-se uma espécie de referência para uma parcela do eleitorado que busca mudanças na condução econômica, enquanto também desperta questionamentos sobre os impactos e os limites de uma estratégia semelhante em um país com dimensões, instituições e desafios diferentes dos argentinos. O debate deverá ganhar força à medida que os candidatos detalharem seus programas e apresentarem estimativas sobre resultados e custos. Mais do que um símbolo de campanha, a aproximação com Milei coloca uma escolha econômica diante dos eleitores: qual deve ser o tamanho do Estado, como controlar as despesas públicas e de que maneira o país pode criar condições para crescer sem comprometer o equilíbrio das contas.



