Na disputa pela Presidência da República, Janja e Michelle estão de olho nas mulheres

A disputa pelo voto das evangélicas ganhou uma dimensão estratégica na eleição presidencial de 2026, colocando Janja da Silva e Michelle Bolsonaro em posições opostas na tentativa de dialogar com um segmento que possui grande peso eleitoral no Brasil. De um lado, a primeira-dama passou a ampliar sua aproximação com mulheres evangélicas, especialmente aquelas que enfrentam problemas sociais e situações de violência. Do outro, Michelle Bolsonaro utiliza a relação construída ao longo dos últimos anos com igrejas e lideranças cristãs para reforçar a conexão com o eleitorado conservador.
O movimento ocorre em meio à disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e o senador Flávio Bolsonaro, do PL, pela Presidência da República. Nesse cenário, a participação das duas mulheres é considerada relevante porque Janja e Michelle ocupam posições de destaque nos grupos políticos que representam, embora apresentem trajetórias e formas diferentes de comunicação com o público feminino. Assim, a batalha pelo voto das evangélicas passou a ser tratada pelas campanhas como uma frente própria dentro da disputa presidencial.
A importância desse eleitorado pode ser compreendida pelos dados demográficos mais recentes disponíveis. Segundo o Censo 2022, 26,9% dos brasileiros com 10 anos ou mais se declaravam evangélicos, o equivalente a aproximadamente 47,4 milhões de pessoas, enquanto a participação desse grupo havia sido de 21,6% em 2010. Portanto, conquistar parte desse público pode representar uma diferença significativa em uma eleição nacional marcada por forte polarização e pela busca de votos em segmentos que ainda podem mudar de posição durante a campanha.
Janja e Michelle buscam aproximação com as eleitoras evangélicas
A estratégia de Janja tem sido construída a partir de uma abordagem que procura aproximar o governo e a campanha de mulheres evangélicas por meio de questões sociais. A primeira-dama vem direcionando atenção especialmente para mulheres de baixa renda e para aquelas que convivem com situações de violência, tentando apresentar temas relacionados à proteção social como pontos de contato com esse público. Dessa maneira, uma tentativa de ampliar a identificação entre o campo governista e eleitoras que historicamente possuem forte presença no debate político está sendo realizada.
Michelle Bolsonaro, por sua vez, possui uma trajetória política construída com forte presença em ambientes religiosos e conservadores. Durante o período em que ocupou o Palácio da Alvorada, ela desenvolveu uma comunicação pública que valorizava a identidade cristã e estabeleceu relações com diferentes lideranças evangélicas, vínculo que agora pode ser utilizado na campanha de Flávio Bolsonaro. A ex-primeira-dama também confirmou sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal, o que amplia sua atuação eleitoral em 2026 e mantém seu nome diretamente envolvido na política nacional.
A diferença entre as duas estratégias revela que o eleitorado evangélico não deve ser tratado como um bloco político completamente uniforme. Embora exista uma forte associação entre setores evangélicos e pautas conservadoras, existem diferentes denominações, perfis sociais, regiões e prioridades econômicas dentro desse grupo. Por isso, tanto a campanha de Lula quanto a de Flávio Bolsonaro precisam considerar que questões como emprego, saúde, segurança, educação, renda e proteção das famílias também podem influenciar a decisão dessas eleitoras.
O peso do voto feminino evangélico em 2026
A disputa pelo voto das evangélicas também está inserida em uma batalha maior pelo eleitorado feminino. As mulheres representam 52,8% do eleitorado brasileiro, segundo dados apresentados em levantamento recente do Correio Braziliense, o que transforma esse segmento em uma parcela decisiva para qualquer candidatura que pretenda construir uma maioria nacional. Nesse contexto, a presença de Janja e Michelle nas campanhas ajuda a criar canais de comunicação específicos com mulheres que podem avaliar propostas políticas a partir de suas experiências familiares, profissionais, econômicas e religiosas.
Para Janja, uma das possibilidades é apresentar políticas públicas relacionadas à proteção das mulheres e ao atendimento de famílias em situação de vulnerabilidade. Para Michelle, a identificação com valores cristãos e conservadores tende a funcionar como um elemento de proximidade com eleitoras que já possuem afinidade com o campo político associado ao bolsonarismo. Entretanto, nenhuma dessas estratégias garante automaticamente o voto, pois a escolha eleitoral é influenciada por diferentes fatores e pode variar conforme região, renda, idade, denominação religiosa e avaliação dos candidatos.
O próprio debate dentro das igrejas mostra que a relação entre religião e política possui limites e contradições. A pastora Helena Raquel, que chegou a aproximar Janja e Michelle em torno de uma discussão sobre violência contra mulheres, defendeu que os evangélicos tenham participação na política, mas advertiu contra a transformação da fé em instrumento de defesa cega de partidos. Esse posicionamento evidencia que existe espaço para diferentes visões políticas dentro do universo cristão e que a tentativa de conquistar esse eleitorado não pode ser reduzida apenas à identificação religiosa.
Religião e política entram no centro da campanha presidencial
A aproximação entre candidaturas e grupos religiosos também precisa ser observada sob a perspectiva das regras eleitorais. O Tribunal Superior Eleitoral possui entendimento de que manifestações públicas de apoio político estão protegidas pela liberdade de expressão, mas situações em que a influência religiosa é utilizada para pressionar ou induzir o voto podem ser submetidas à análise da Justiça Eleitoral. Dessa forma, a participação de igrejas e lideranças no debate político é possível, porém determinadas condutas podem gerar questionamentos quando houver abuso de poder ou comprometimento da liberdade de escolha do eleitor.
A disputa entre Janja e Michelle pelo voto das evangélicas, portanto, representa uma tentativa de alcançar um eleitorado numeroso, diversificado e politicamente relevante. Enquanto Janja procura construir uma aproximação baseada principalmente em questões sociais e na realidade de mulheres vulneráveis, Michelle mantém uma identidade política mais ligada ao campo conservador e às comunidades cristãs que já acompanham sua trajetória. Com a campanha presidencial avançando, a maneira como cada grupo conseguirá dialogar com as preocupações concretas das eleitoras poderá ser determinante para ampliar apoio e conquistar votos em uma eleição marcada por forte concorrência e intensa mobilização política.



