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Ministro Flávio Dino autorizou a PF a acessar dados de operação que investigou suspeitas de fraude

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal (PF) a acessar dados apreendidos em uma operação da Polícia Civil de São Paulo contra a produtora do filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão amplia o material disponível para os investigadores federais, que apuram se recursos públicos, incluindo emendas parlamentares, tiveram alguma relação com o financiamento da produção. O compartilhamento dos dados foi autorizado nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, e representa mais um desdobramento das investigações envolvendo a origem dos recursos utilizados no longa.

A operação que produziu os dados agora liberados para a PF foi realizada em junho pela Polícia Civil paulista e teve como alvo Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment, empresa responsável pela produção de “Dark Horse”. Na mesma investigação, foram realizadas buscas em endereços ligados ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização comandada por Karina, diante de suspeitas relacionadas a um contrato firmado com a Prefeitura de São Paulo. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, o contrato, avaliado em R$ 108 milhões, tinha como finalidade a instalação de pontos de internet Wi-Fi em comunidades da capital paulista.

A partir de agora, o material apreendido pela Polícia Civil poderá ser analisado pelos investigadores federais dentro de uma apuração diferente, concentrada na possível utilização de emendas parlamentares para financiar o filme. É importante destacar, portanto, que a autorização de Dino não significa que irregularidades tenham sido comprovadas, mas permite que informações já obtidas em outra investigação sejam utilizadas para esclarecer a origem e a destinação de determinados recursos. Dessa forma, documentos, dados financeiros e outros elementos recolhidos durante a operação poderão ajudar a PF a cruzar informações e verificar se existe conexão entre as diferentes fontes de dinheiro investigadas.

Dino autoriza PF a ampliar investigação sobre Dark Horse

A decisão de Flávio Dino está relacionada a uma investigação que tramita no STF e busca esclarecer se emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas à produção de “Dark Horse” foram utilizadas de maneira irregular. O ministro é relator de processos que tratam de possíveis problemas na destinação e execução de emendas, e, por isso, a PF solicitou acesso às informações obtidas pela Polícia Civil de São Paulo. Com a autorização judicial, os investigadores federais poderão comparar o conteúdo apreendido na operação estadual com os dados já reunidos no inquérito conduzido no Supremo.

Entre os parlamentares citados nas apurações está Mário Frias, deputado federal do PL por São Paulo e um dos nomes ligados à produção do filme. Segundo informações divulgadas, Frias destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares, em 2024, ao Instituto Conhecer Brasil, entidade comandada por Karina Ferreira da Gama. O deputado afirmou anteriormente que os recursos destinados à organização não teriam sido utilizados para financiar a produção de “Dark Horse”, mas a destinação das verbas passou a ser analisada dentro da investigação federal.

A investigação, entretanto, não deve ser confundida com outra frente que apura especificamente os recursos privados empregados na produção da cinebiografia. Em julho, o ministro André Mendonça autorizou uma investigação da PF sobre o financiamento do filme, incluindo informações relacionadas a recursos atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro, ex-presidente do Banco Master. Paralelamente, Dino conduz a apuração sobre eventual uso de emendas parlamentares, fazendo com que diferentes linhas investigativas possam examinar aspectos distintos da produção do longa.

Dark Horse entra no centro de novas apurações

A produção de “Dark Horse” já havia despertado atenção pelo valor informado para a realização do filme e pela origem dos recursos utilizados. A Go Up Entertainment declarou que a cinebiografia custou US$ 13,3 milhões, valor equivalente a pouco mais de R$ 75 milhões, segundo informação divulgada em junho pelo Metrópoles. Esse montante passou a ser confrontado com outras informações sobre o financiamento da obra, aumentando a necessidade de esclarecer como os pagamentos foram realizados e quais empresas e pessoas participaram das operações financeiras.

Também existem investigações relacionadas a possíveis conexões empresariais envolvendo recursos destinados à produção. Em julho, a PF abriu uma frente para apurar um possível elo entre “Dark Horse” e a empresa ACX ITC Tecnologia, após identificar uma transferência de R$ 28 milhões da Entre Investimentos e Participações para a companhia, sendo a Entre apontada como empresa utilizada por Daniel Vorcaro para financiar a produção. A apuração foi ampliada diante de informações sobre possíveis vínculos da ACX ITC com uma rede investigada por suspeitas de lavagem de dinheiro, mas a existência de investigação não equivale à comprovação de crime ou de participação dos envolvidos nas irregularidades apuradas.

Outro elemento que contribuiu para aumentar a atenção sobre o filme foi a participação de integrantes da família Bolsonaro na produção. Documentos divulgados anteriormente indicaram que Eduardo Bolsonaro aparece como produtor-executivo da obra, enquanto Mário Frias também é citado nessa função, em um contrato relacionado ao projeto. Além disso, mensagens atribuídas a Flávio Bolsonaro envolvendo pedidos de recursos para o filme deram origem a uma investigação específica, embora essa frente seja distinta da apuração sobre as emendas parlamentares conduzida por Dino.

O que a decisão de Dino pode revelar sobre o financiamento do filme

Com o acesso autorizado por Flávio Dino, a Polícia Federal poderá utilizar informações que estavam sob guarda da investigação paulista e cruzá-las com os elementos já reunidos no inquérito federal. A medida poderá ajudar a identificar movimentações financeiras, contratos, comunicações e relações entre pessoas ou entidades envolvidas nas diferentes etapas da produção, desde que esses elementos estejam entre os dados efetivamente apreendidos e sejam pertinentes à investigação. Assim, o objetivo central passa a ser esclarecer se recursos públicos destinados a entidades relacionadas à produtora tiveram alguma participação no financiamento de “Dark Horse”.

Por enquanto, as apurações continuam em andamento e nenhuma conclusão definitiva sobre eventual desvio ou utilização irregular de recursos públicos foi apresentada. A autorização concedida por Dino deve ser compreendida como uma medida para ampliar o acesso a elementos de investigação e permitir que a PF avance na reconstrução da origem e do destino dos valores relacionados ao filme. Com novas informações podendo ser cruzadas pelas autoridades, “Dark Horse” permanece no centro de diferentes investigações que envolvem emendas parlamentares, contratos públicos e fontes privadas de financiamento.

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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