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A Doutrina Monroe está em alta por causa da nova estratégia dos Estados Unidos

Uma doutrina criada no século 19 voltou ao centro das atenções e passou a ser associada de maneira direta à política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A Doutrina Monroe, formulada em 1823 durante o governo de James Monroe, voltou a ser apresentada pelo próprio governo norte-americano como uma referência para a atuação de Washington no Hemisfério Ocidental. A retomada ocorre em um momento de forte disputa geopolítica, no qual os Estados Unidos procuram ampliar sua influência sobre a América Latina e reduzir o espaço ocupado por potências como China e Rússia. Em 11 de agosto, o Departamento de Estado americano divulgou um vídeo institucional defendendo a importância histórica da doutrina e reafirmando a ideia de que o domínio dos EUA nas Américas não deveria ser novamente questionado.

A iniciativa chamou atenção porque a Doutrina Monroe possui uma trajetória muito mais complexa do que a conhecida expressão associada a ela, de que a América deveria ser destinada aos americanos. Originalmente, a declaração feita por James Monroe procurava impedir que as potências europeias voltassem a ampliar sua influência sobre os países recém-independentes do continente. Com o passar das décadas, porém, a interpretação americana foi modificada e diferentes presidentes utilizaram a doutrina para justificar uma posição de liderança e, em determinadas situações, intervenções na América Latina. Um estudo publicado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais destaca justamente essa transformação histórica, mostrando como a doutrina foi reinterpretada em diferentes períodos até chegar à atual versão associada ao governo Trump.

A retomada do conceito acontece em um cenário especialmente delicado para os países latino-americanos. Desde o retorno de Trump à Casa Branca, a América Latina passou a ocupar uma posição mais importante na estratégia internacional de Washington. A região é vista como área estratégica por causa de sua proximidade geográfica com os Estados Unidos, de seus recursos naturais, de suas rotas comerciais e da crescente presença econômica chinesa. Dessa forma, a nova orientação não pode ser analisada apenas como uma recuperação de uma ideia histórica. Ela também precisa ser compreendida como parte de uma disputa contemporânea por influência, segurança, comércio e controle de áreas consideradas estratégicas pelos Estados Unidos.

A doutrina do século 19 e a origem da política americana nas Américas

A Doutrina Monroe foi apresentada por James Monroe ao Congresso dos Estados Unidos em dezembro de 1823. Naquele momento, diversos países latino-americanos haviam acabado de conquistar sua independência e existia o temor de que as monarquias europeias tentassem recuperar posições perdidas no continente. A mensagem americana tinha, portanto, uma finalidade estratégica: Washington pretendia deixar claro que novas tentativas de colonização ou intervenção europeia no Hemisfério Ocidental seriam consideradas uma ameaça aos interesses dos Estados Unidos. No entanto, é importante lembrar que o país ainda não possuía a capacidade econômica e militar que alcançaria posteriormente. Por isso, a influência prática da doutrina no século 19 foi bastante diferente daquela que seria construída nas décadas seguintes.

A transformação ocorreu gradualmente. Um dos momentos mais importantes foi o chamado Corolário Roosevelt, apresentado em 1904 pelo presidente Theodore Roosevelt. A partir daquela interpretação, os Estados Unidos passaram a reivindicar uma espécie de direito de intervenção nos países latino-americanos quando considerassem que havia instabilidade ou ameaça aos seus interesses. Essa mudança ajudou a consolidar Washington como potência predominante no continente e marcou uma diferença fundamental em relação à formulação original de Monroe. Posteriormente, outras interpretações também foram construídas por governos americanos, fazendo com que a doutrina se tornasse uma referência histórica utilizada para justificar diferentes estratégias de política externa.

Como Trump recuperou a Doutrina Monroe

No governo Trump, a antiga doutrina ganhou uma nova roupagem e passou a ser associada por analistas ao termo informal “Doutrina Donroe”, uma combinação entre o sobrenome do presidente e o de James Monroe. A expressão é usada para descrever uma política que coloca a América Latina e o Caribe no centro da estratégia de Washington e procura limitar a presença de outras potências na região. Essa orientação já vinha sendo identificada desde 2025, quando documentos de segurança dos Estados Unidos passaram a tratar o Hemisfério Ocidental como uma área prioritária. Em 2026, entretanto, a estratégia passou a ser acompanhada por ações mais contundentes, aumentando a preocupação dos governos latino-americanos.

A situação da Venezuela representa um dos exemplos mais evidentes dessa mudança. No início de 2026, o governo Trump realizou uma operação contra o país e anunciou a captura de Nicolás Maduro, que foi levado para os Estados Unidos. A Casa Branca havia utilizado anteriormente argumentos relacionados ao combate ao narcotráfico e à segurança nacional, enquanto a Doutrina Monroe também havia sido mencionada como parte do contexto estratégico da nova política americana para a região. O episódio demonstrou que a discussão deixou de ser apenas acadêmica ou histórica e passou a envolver medidas concretas de pressão e intervenção. Por isso, a recuperação da doutrina passou a ser acompanhada com preocupação por especialistas em relações internacionais.

O avanço dessa política também está relacionado à crescente presença da China na América Latina. Nos últimos anos, Pequim ampliou investimentos, comércio e acordos econômicos com diversos países da região, tornando-se um importante parceiro comercial para governos latino-americanos. Para Washington, esse movimento representa uma perda relativa de influência em uma área considerada estratégica por razões históricas e geográficas. Assim, a recuperação da Doutrina Monroe pode ser interpretada como uma tentativa de estabelecer limites à atuação chinesa e de reafirmar a posição dos Estados Unidos como principal potência do Hemisfério Ocidental. O Departamento de Estado voltou a apresentar publicamente essa visão em agosto de 2026, justamente quando a competição entre Washington e Pequim se intensifica em diferentes partes do mundo.

Para países como o Brasil, a nova orientação americana representa um desafio diplomático importante. O governo brasileiro precisa manter relações comerciais relevantes tanto com os Estados Unidos quanto com a China, evitando que a disputa entre as duas potências obrigue Brasília a escolher um único lado. Além disso, qualquer aumento da pressão americana sobre governos latino-americanos pode afetar a estabilidade política e econômica da região. Ao mesmo tempo, a retomada da Doutrina Monroe reacende uma discussão histórica sobre soberania e autonomia dos países latino-americanos. Embora Washington apresente sua estratégia como uma forma de proteger seus interesses e sua segurança, outros governos podem enxergar a iniciativa como uma tentativa de limitar suas escolhas diplomáticas e econômicas.

O retorno da Doutrina Monroe ao discurso oficial dos Estados Unidos, portanto, representa muito mais do que uma referência histórica. O conceito criado há mais de dois séculos está sendo adaptado a uma realidade completamente diferente, marcada pela competição entre grandes potências, pela disputa por recursos estratégicos e pela presença crescente da China na América Latina. Ao recuperar essa linguagem, Trump sinaliza que pretende tratar o Hemisfério Ocidental como uma área prioritária para os interesses americanos. Para os países da região, inclusive o Brasil, o cenário exige atenção e capacidade de negociação, sobretudo porque decisões tomadas em Washington podem produzir consequências econômicas, políticas e diplomáticas muito além das fronteiras dos Estados Unidos. Dessa maneira, uma doutrina concebida no século 19 volta a influenciar o debate internacional no século 21 e se transforma em uma das principais chaves para compreender a atual política externa de Donald Trump nas Américas.

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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