CFM cumpre ordem de Moraes e anula sindicância sobre cuidados a Bolsonaro, em um episódio que reacendeu o debate sobre os limites institucionais, a autonomia de conselhos profissionais e a atuação do Judiciário em casos de grande repercussão política. A decisão, comunicada oficialmente ao Supremo Tribunal Federal (STF), marca mais um capítulo da intensa judicialização envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e aprofunda a polarização em torno de seu tratamento durante o cumprimento de pena.
Desde o anúncio inicial da abertura da sindicância pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), o tema passou a mobilizar parlamentares, juristas, entidades médicas e a opinião pública. Agora, com a anulação formal do procedimento, novas discussões emergem sobre legalidade, finalidade administrativa e o papel das instituições de controle.
A decisão judicial e o cumprimento imediato
Antes de tudo, é importante destacar que o CFM informou oficialmente ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, que cumpriu integralmente a ordem judicial que determinava a anulação da sindicância. A decisão havia sido proferida na última terça-feira (7), poucas horas após o conselho divulgar que analisaria a assistência médica prestada a Bolsonaro enquanto ele estava sob custódia do Estado.
Segundo Moraes, a abertura do procedimento configuraria desvio de finalidade, uma vez que poderia extrapolar as atribuições do conselho profissional e interferir, ainda que indiretamente, em decisões relacionadas à execução da pena do ex-presidente.
Diante disso, o cumprimento imediato da ordem foi apresentado pelo CFM como prova de respeito às decisões judiciais e ao Estado Democrático de Direito.

O contexto que levou à sindicância
Para compreender o caso, entretanto, é necessário retornar alguns dias no tempo. No início da semana, Jair Bolsonaro sofreu uma queda dentro da cela, batendo a cabeça. O episódio gerou preocupação entre aliados e parlamentares da oposição, que passaram a questionar se os cuidados médicos prestados pela Polícia Federal teriam sido suficientes.
A defesa do ex-presidente solicitou sua transferência imediata para um hospital, com o objetivo de realizar exames mais detalhados. Inicialmente, Alexandre de Moraes negou o pedido, sustentando que os médicos da Polícia Federal não haviam identificado a necessidade clínica de deslocamento.
Essa negativa, contudo, desencadeou críticas intensas, sobretudo de parlamentares aliados a Bolsonaro, que passaram a pressionar o CFM para apurar se houve falha na assistência médica.
As denúncias recebidas pelo Conselho Federal de Medicina
Nesse contexto, o presidente do CFM, José Hiran da Silva Gallo, informou que o órgão recebeu mais de 40 denúncias formais relacionadas ao atendimento médico prestado ao ex-presidente. Entre elas, havia inclusive uma denúncia apresentada pela deputada federal Bia Kicis.
Segundo o conselho, diante desse volume expressivo de representações, a abertura da sindicância seguiria o rito normal previsto na legislação que rege a atuação da entidade. Em outras palavras, o procedimento não teria sido motivado por questões políticas, mas sim por obrigações administrativas e legais.
Ainda assim, essa justificativa não foi suficiente para afastar a intervenção do STF.
Moraes aponta desvio de finalidade
Ao analisar o caso, Alexandre de Moraes foi categórico ao afirmar que a iniciativa do CFM poderia caracterizar uma tentativa indireta de questionar decisões judiciais relacionadas à custódia de Bolsonaro.
Além disso, o ministro ressaltou que o conselho não possui competência para fiscalizar ou corrigir atos da Polícia Federal no contexto da execução penal, o que reforçaria a tese de desvio de finalidade.
Por esse motivo, Moraes não apenas determinou a anulação da sindicância, como também ordenou que a Polícia Federal colhesse o depoimento do presidente do CFM no prazo de dez dias.
A resposta do CFM ao Supremo
Ao comunicar o cumprimento da ordem, José Hiran anexou ao STF uma série de explicações detalhadas. No documento, o presidente do conselho buscou demonstrar que a atuação do CFM seguiu padrões institucionais já consolidados e que não houve qualquer intenção de interferir na execução da pena ou nas atribuições de outros órgãos do Estado.
Segundo os dados apresentados, apenas entre 2020 e 2025, o CFM instaurou 34.003 procedimentos em todo o país, o que representa uma média aproximada de 18,65 casos por dia. Esse número foi usado como argumento para sustentar que a sindicância envolvendo Bolsonaro não seria um caso excepcional ou politicamente direcionado.
Sindicância como instrumento de proteção institucional
Além disso, o conselho destacou que a sindicância não tem apenas caráter punitivo. Segundo o documento enviado ao ministro, esse tipo de procedimento também funciona como um instrumento de proteção institucional, tanto para os médicos envolvidos quanto para os próprios órgãos públicos.
Nesse sentido, a apuração serviria para esclarecer fatos, evitar acusações infundadas e garantir segurança jurídica aos profissionais de saúde que atuam em situações sensíveis, como o atendimento a presos de alta notoriedade.
Apesar disso, o STF manteve o entendimento de que, naquele caso específico, a abertura do procedimento extrapolava os limites aceitáveis.
Pedido para cancelamento do depoimento
Diante das explicações apresentadas, o CFM solicitou ao ministro Alexandre de Moraes que reconsiderasse a determinação de oitiva do presidente do conselho pela Polícia Federal.
No documento, o órgão enfatizou que jamais pretendeu exercer competência correcional sobre a Polícia Federal e que não houve qualquer tentativa de ingerência em atribuições constitucionalmente conferidas a outros poderes.
Até o momento, contudo, não há informação pública sobre eventual decisão do ministro quanto a esse pedido.
A ida de Bolsonaro ao hospital
Embora inicialmente tenha negado a transferência de Bolsonaro para um hospital, Moraes autorizou o deslocamento no dia seguinte, após a defesa apresentar laudos médicos solicitados pelo próprio ministro.
O ex-presidente realizou exames, retornou à prisão no mesmo dia e, segundo informações oficiais, não apresentou complicações de saúde decorrentes da queda. Ainda assim, o episódio já havia sido suficiente para inflamar o debate político e jurídico em torno de seus direitos enquanto preso.
Reação política e polarização
Enquanto isso, no campo político, a anulação da sindicância foi interpretada de formas distintas. Para aliados de Bolsonaro, a decisão do STF reforça a tese de que há uma tentativa de silenciar questionamentos e limitar a atuação de entidades independentes.
Por outro lado, críticos do ex-presidente afirmam que a abertura da sindicância teria sido instrumentalizada politicamente para constranger o Judiciário e criar uma narrativa de perseguição.
Assim, mais uma vez, o caso ultrapassou o campo técnico e se transformou em um símbolo da polarização que domina o debate público brasileiro.
Autonomia dos conselhos profissionais em debate
O episódio também reacendeu discussões mais amplas sobre a autonomia dos conselhos profissionais. Juristas e especialistas em direito administrativo passaram a questionar até que ponto entidades como o CFM podem agir de forma independente quando seus atos tangenciam decisões judiciais sensíveis.
Ao mesmo tempo, defensores da autonomia institucional alertam para o risco de enfraquecimento dos conselhos caso qualquer investigação envolvendo figuras públicas seja automaticamente barrada pelo Judiciário.
Considerações finais
Em síntese, CFM cumpre ordem de Moraes e anula sindicância sobre cuidados a Bolsonaro representa muito mais do que um simples ato administrativo. Trata-se de um episódio que expõe tensões entre Poder Judiciário, entidades de classe e o ambiente político altamente polarizado do país.
Embora a sindicância tenha sido anulada, os debates levantados por esse caso devem continuar reverberando, tanto no meio jurídico quanto no político, especialmente à medida que novos desdobramentos envolvendo Jair Bolsonaro seguem ganhando espaço na agenda nacional.
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