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Investigação sobre lavagem do tráfico chega ao STF por possível elo com casos Master e INSS

Uma investigação iniciada pela Polícia Civil de São Paulo em 2024 ganhou uma nova dimensão após chegar ao Supremo Tribunal Federal (STF), neste mês, diante de possíveis conexões com apurações envolvendo o Banco Master e suspeitas de irregularidades relacionadas a aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Batizada de Operação Saturno, a investigação identificou uma extensa rede formada por empresas, contas bancárias, fintechs e pessoas físicas que, segundo relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), movimentou aproximadamente R$ 48 bilhões ao longo de cinco anos. O caso chamou a atenção das autoridades pela quantidade de operações financeiras e pela possibilidade de que estruturas semelhantes tenham sido utilizadas para movimentar recursos de diferentes esquemas.

O ponto de partida foi uma ocorrência registrada em 2024, quando um suspeito foi preso com drogas, materiais relacionados à comercialização de entorpecentes e R$ 100 mil em espécie. A partir da quebra de sigilos bancários, os investigadores começaram a acompanhar transferências realizadas por ele e por pessoas ligadas à cadeia de fornecimento. O rastreamento levou a empresas que, conforme a investigação, estariam registradas em nome de terceiros e posteriormente conectadas a operadores financeiros. Entre as transações analisadas está um repasse de R$ 7,5 milhões da empresa Maguinific para a Nexpay, fintech utilizada para intermediar pagamentos em plataformas de comércio eletrônico com fornecedores chineses. Parte das operações cambiais relacionadas a esses pagamentos teria passado pelo Banco Master.

Outro caminho identificado pelos investigadores envolve a empresa Wave e a Entre Investimentos e Participações. Segundo o relatório policial, duas transferências realizadas pela Wave somaram R$ 940 mil e tiveram como destino a Entre Investimentos, grupo que mantinha fundos no Banco Master e que, de acordo com a apuração, também aparece em movimentações relacionadas à produção do filme “Dark Horse”, obra sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. A Polícia Civil aponta a Wave como uma empresa que teria desempenhado papel relevante na circulação de recursos investigados na Operação Saturno. As autoridades, contudo, ainda precisam esclarecer a origem, o destino e a eventual relação entre todas as operações identificadas, já que a simples presença de empresas ou pessoas em relatórios financeiros não significa, por si só, participação em irregularidades.

A investigação também encontrou uma possível ligação com as apurações envolvendo o INSS. Conforme os documentos, a Prospect Consultoria Empresarial, pertencente ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, teria transferido R$ 13,7 milhões para a Arpar Administração, Participação e Empreendimento. Na sequência, a Arpar teria realizado operações com outras cinco empresas que aparecem na investigação sobre recursos associados ao tráfico de drogas. Os investigadores afirmam ainda que parte das empresas utilizadas na estrutura estava registrada em nome de pessoas de baixa renda que, segundo os relatos reunidos no inquérito, teriam cedido documentos pessoais para abertura de companhias sem administrar efetivamente as contas. A suspeita é de que essas estruturas tenham sido empregadas para dificultar o rastreamento da movimentação financeira.

Diante da dimensão do caso, a Polícia Civil pediu o encaminhamento da investigação à Justiça Federal, enquanto o Ministério Público de São Paulo reconheceu a complexidade das operações analisadas. O Ministério Público Federal, por sua vez, opinou pelo envio do procedimento ao STF devido à possível relação com investigações que já tramitam na Corte, sob supervisão do ministro André Mendonça. O próprio parecer, porém, fez uma ressalva importante: movimentações identificadas em relatórios de inteligência financeira podem revelar operações paralelas sem necessariamente existir uma ligação direta entre diferentes investigações. O inquérito chegou ao gabinete de Mendonça no dia 12 e permanece sob segredo de Justiça, sem decisão pública sobre os próximos passos.

As empresas e pessoas citadas apresentam versões diferentes ou ainda não se manifestaram sobre as suspeitas. A defesa de Antônio Carlos Camilo Antunes informou desconhecer a investigação e não comentou as acusações, enquanto a defesa de Daniel Vorcaro não apresentou manifestação. O proprietário da Nexpay declarou, em depoimento, que a empresa foi encerrada no ano passado e que as operações com a Maguinific ocorreram por cerca de dois meses e meio, acompanhadas de documentos que, na ocasião, aparentavam estar regulares. Empresas como Wave e Arpar também já haviam aparecido em outras apurações sobre movimentações financeiras. Em manifestação divulgada anteriormente, a Wave negou participação em lavagem de dinheiro e afirmou atuar com criptomoedas. A Entre Investimentos declarou que realiza suas atividades dentro das normas aplicáveis ao setor financeiro e afirmou estar à disposição das autoridades. Com o caso agora no STF, a principal questão será determinar se as transações reveladas pela Operação Saturno possuem conexão efetiva com as investigações do Banco Master e do INSS ou se representam episódios distintos identificados durante o rastreamento financeiro.

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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