Fachin propõe código de ética sem punição e que exclui ministros do STF

A promessa do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, de estabelecer novas referências éticas para o Judiciário avançou, mas a proposta apresentada ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) já desperta questionamentos. A minuta de resolução cria uma política nacional voltada à prevenção e à administração de conflitos de interesses envolvendo magistrados e servidores. O ponto que mais chama atenção, porém, está justamente nas limitações do texto: não há previsão de sanções específicas para o descumprimento das diretrizes e as regras não alcançam os ministros do próprio STF. Apresentada aos integrantes do CNJ em 4 de agosto, a proposta ainda precisará ser discutida e votada pelo colegiado antes de uma eventual aprovação. O CNJ foi procurado para explicar os motivos dessas escolhas, mas não havia apresentado resposta até o fechamento da reportagem.
A iniciativa representa o primeiro passo concreto de Fachin desde que assumiu a presidência do STF e do CNJ para colocar em prática a promessa de criar mecanismos mais claros de orientação ética. Em janeiro, o ministro afirmou que a maioria de seus colegas era favorável à ideia, embora houvesse resistência quanto ao momento adequado para a adoção de um código específico. Agora, a minuta apresentada ao CNJ concentra-se principalmente na prevenção de situações que possam comprometer ou colocar em dúvida a independência e a imparcialidade de integrantes do Judiciário. A ausência dos ministros do STF, entretanto, coloca uma questão central no debate: justamente a Corte que ocupa posição de destaque nas discussões públicas sobre conflitos de interesse não está submetida à nova política proposta pelo CNJ.
A exclusão do STF não ocorre, segundo especialistas, por uma simples escolha administrativa. O CNJ possui competência constitucional para exercer funções de controle administrativo, financeiro e disciplinar sobre os órgãos e magistrados situados abaixo do Supremo, mas não sobre os próprios ministros da Corte. Esse entendimento foi consolidado pelo STF no julgamento da ADI 3.367. Dessa forma, uma resolução do CNJ não poderia estabelecer regras diretamente aplicáveis aos integrantes do Supremo. Para especialistas, porém, a limitação jurídica produz um desafio institucional importante, já que permanece pendente a criação de um código de ética próprio para os ministros. A discussão ganhou relevância nos últimos anos diante de questionamentos envolvendo participação em eventos patrocinados, relações profissionais e empresariais de familiares e encontros com representantes do setor privado.
Na prática, a minuta aposta muito mais em orientação e prevenção do que na criação de novas punições. O texto prevê mecanismos como consultas preventivas, gestão de riscos, orientação ética e declaração de interesses para determinadas funções consideradas mais suscetíveis a conflitos. Também estabelece conceitos para diferenciar situações reais, aparentes e potenciais. Um conflito aparente, por exemplo, pode existir quando as circunstâncias de determinado caso são suficientes para gerar uma dúvida razoável sobre a imparcialidade do magistrado, mesmo sem demonstração de favorecimento. A proposta ainda recomenda atenção a temas como participação em eventos patrocinados por terceiros, recebimento de presentes e hospitalidades, vínculos familiares e profissionais, atividades acadêmicas ou empresariais e uso de informações obtidas em razão do cargo.
Entre os pontos que podem gerar novos debates está a ausência de critérios objetivos para algumas dessas situações. Especialistas citados na discussão avaliam que seria importante definir parâmetros mais claros para questões como valores de presentes e hospitalidades ou períodos de afastamento antes de uma eventual atuação na iniciativa privada. Outro mecanismo previsto é a declaração de interesses, destinada a identificar atividades e vínculos familiares, profissionais ou econômicos que possam representar risco de conflito. O documento, porém, não seria obrigatório para todos os tribunais, e a forma de divulgação das informações deverá respeitar regras de proteção de dados pessoais e de privacidade. Para críticos da proposta, uma divulgação limitada pode reduzir o potencial de transparência do mecanismo; por outro lado, a proteção de informações sensíveis permanece como uma exigência jurídica relevante.
O debate, portanto, está apenas começando e deverá ganhar novos contornos durante a análise da minuta pelo CNJ. A proposta procura criar uma cultura de prevenção dentro do Judiciário, fazendo com que possíveis conflitos sejam identificados antes de produzirem reflexos sobre a atuação institucional. A ideia é deslocar parte do controle para dentro dos próprios tribunais, permitindo que magistrados e servidores comuniquem previamente situações capazes de gerar dúvidas sobre sua imparcialidade. O resultado final dependerá das discussões e eventuais alterações no texto. Enquanto isso, permanece uma questão no centro da atenção: como estabelecer padrões mais claros de integridade para o Judiciário quando a iniciativa apresentada pelo CNJ não pode alcançar os ministros do STF? Essa resposta poderá ser decisiva para definir o alcance e a efetividade da proposta de Fachin.




