Nunes Marques diz a diplomatas que País é ‘referência mundial’ em eleições

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, reuniu cerca de 80 embaixadores, diplomatas e representantes da Justiça de diferentes países para apresentar detalhes sobre a segurança das urnas eletrônicas e defender a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. O encontro, realizado a portas fechadas, também colocou em evidência um dos principais desafios da próxima disputa eleitoral: o uso de inteligência artificial pelas campanhas. Ao falar na abertura, Nunes Marques afirmou que o Brasil se consolidou como referência na realização de eleições e destacou a evolução dos mecanismos tecnológicos utilizados para garantir transparência e segurança durante a votação.
A iniciativa havia sido planejada desde maio, quando Nunes Marques assumiu a presidência do TSE, e ocorre em um momento de atenção internacional sobre o processo eleitoral brasileiro. Segundo o ministro, a inteligência artificial amplia as possibilidades de produção de conteúdos capazes de influenciar a percepção dos eleitores. Entre as preocupações estão vídeos, áudios e imagens produzidos ou modificados digitalmente que possam apresentar informações enganosas durante a campanha. O tribunal ainda deverá estabelecer regras mais específicas para o emprego dessas ferramentas, incluindo os chamados avatares e conteúdos classificados como deepfakes. O tema ganhou espaço após a divulgação de um material produzido com inteligência artificial que utilizou a imagem virtual do ex-presidente Jair Bolsonaro em apoio à candidatura de seu filho, Flávio Bolsonaro.
O encontro também acontece em meio a uma relação diplomática marcada por questionamentos sobre possíveis influências externas no processo eleitoral brasileiro. Representantes dos Estados Unidos participaram da reunião, embora o posto de embaixador americano no Brasil esteja atualmente sem titular. A presença da diplomacia americana ganhou atenção após episódios recentes envolvendo integrantes dos dois governos. Em julho, dois diplomatas dos Estados Unidos tiveram pedidos de entrada no Brasil negados em meio a suspeitas relacionadas à agenda que pretendiam cumprir no país. O governo americano negou qualquer intenção de interferir nas eleições brasileiras e afirmou que respeitaria o resultado das urnas, desde que a disputa ocorresse de maneira livre e justa.
A preocupação com informações relacionadas às urnas também apareceu em declarações recentes de Flávio Bolsonaro durante encontros com representantes estrangeiros. O parlamentar mencionou uma suposta relação entre a empresa responsável pela fabricação das urnas brasileiras e um plano de irregularidades eleitorais na Venezuela. O TSE já havia contestado a afirmação e voltou a esclarecer o assunto. Paralelamente, integrantes da própria Corte vinham defendendo uma atuação mais direta de Nunes Marques na comunicação pública sobre a segurança do sistema eletrônico. Desde que assumiu a presidência do tribunal, o ministro adotou medidas para ampliar o diálogo com representantes internacionais e criou uma Diretoria de Assuntos Internacionais vinculada à Presidência do TSE. Em julho, ele já havia recebido 25 embaixadores para apresentar informações sobre o funcionamento das urnas.
Durante a reunião mais recente, os representantes estrangeiros também tiveram a oportunidade de acompanhar uma simulação de votação e conhecer, de forma prática, o funcionamento da urna eletrônica. De acordo com o TSE, 92 embaixadas confirmaram participação no evento, sendo que 57 enviaram seus próprios embaixadores. Também estiveram presentes o coordenador residente da Organização das Nações Unidas (ONU) e o encarregado de negócios da União Europeia. Os participantes receberam informações sobre medidas planejadas para preservar a integridade do processo eleitoral e concordaram em enviar representantes para acompanhar as duas etapas da eleição em uma sala de situação do tribunal. A proposta é monitorar possíveis conteúdos digitais capazes de interferir na decisão dos eleitores durante os períodos mais sensíveis da disputa.
A movimentação do TSE também estabelece um contraste com o cenário vivido nas eleições de 2022, quando o então presidente Jair Bolsonaro convocou embaixadores para apresentar questionamentos sobre o sistema eletrônico de votação. Naquele episódio, o Tribunal Superior Eleitoral posteriormente condenou Bolsonaro por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, decisão que resultou em sua inelegibilidade até 2030. Agora, sob a presidência de Nunes Marques, a Corte busca ampliar a comunicação com a comunidade internacional e apresentar diretamente os procedimentos adotados para proteger a votação. Em um ambiente marcado pelo avanço da inteligência artificial e pela circulação acelerada de conteúdos digitais, o esforço do tribunal sinaliza que a disputa pela confiança no processo eleitoral não ficará restrita aos eleitores brasileiros, envolvendo também observadores e instituições internacionais.



