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Braskem entra com pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo

A Braskem pediu recuperação extrajudicial à Justiça de São Paulo nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, em uma das medidas mais importantes de sua recente crise financeira. A petroquímica pretende renegociar uma dívida de aproximadamente R$ 54 bilhões, valor equivalente a mais de US$ 10 bilhões, com grande parte dos compromissos denominada em moeda norte-americana. Com o pedido, a companhia busca ganhar tempo para reorganizar suas obrigações, preservar o caixa e construir um acordo com os principais credores.

A decisão foi tomada depois de semanas de negociações e de uma medida cautelar que havia concedido proteção temporária contra determinadas ações de cobrança. Esse período de proteção chegava ao fim justamente nesta segunda-feira, o que aumentou a pressão para que uma solução fosse apresentada pela empresa. Agora, a Braskem terá um novo período de proteção judicial de 90 dias para avançar na elaboração e na negociação do plano de reestruturação financeira.

A situação chama atenção porque a Braskem continua sendo uma das maiores empresas petroquímicas do país e possui operações relevantes no Brasil e no exterior. Apesar de ter registrado lucro de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026, a companhia enfrenta dificuldades de liquidez, endividamento elevado e um cenário desfavorável para a indústria petroquímica internacional. Por isso, o pedido não representa simplesmente uma tentativa de adiar pagamentos, mas uma estratégia para modificar prazos, valores e condições das obrigações financeiras.

Braskem pede recuperação extrajudicial diante de dívida bilionária

A recuperação extrajudicial permite que a empresa negocie uma reorganização financeira diretamente com seus credores, com posterior participação do Poder Judiciário na homologação do acordo. No caso da Braskem, as negociações envolvem detentores de títulos de dívida, bancos e outras instituições financeiras, entre elas BNDES, Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander. Dessa maneira, diferentes grupos de credores deverão ser envolvidos na definição das novas condições para o pagamento dos compromissos.

O tamanho da dívida ajuda a explicar a dimensão do desafio enfrentado pela companhia. Aproximadamente US$ 7 bilhões do passivo estão relacionados a investidores que possuem títulos emitidos pela empresa, enquanto outros compromissos estão distribuídos entre instituições financeiras e diferentes instrumentos de crédito. Por isso, uma solução definitiva dependerá de negociações complexas, nas quais deverão ser avaliadas alternativas como alongamento de prazos, alteração de condições financeiras, capitalização e utilização de ativos como garantias.

A pressão financeira aumentou depois que a Fitch Ratings rebaixou a classificação de crédito da Braskem para RD, categoria associada a inadimplência restrita. O rebaixamento ocorreu após a companhia deixar de realizar pagamentos de juros dentro do período de carência, em uma decisão relacionada aos esforços para preservar sua liquidez. Portanto, mesmo com a geração de lucro no segundo trimestre, o fluxo de caixa e o elevado nível de endividamento continuam sendo pontos centrais para a avaliação da saúde financeira da empresa.

Recuperação da Braskem ocorre em meio a pressão internacional

A crise da Braskem não está restrita às operações brasileiras. Na semana passada, a Braskem Idesa, parceria da companhia com o grupo mexicano Idesa, entrou com pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos, pelo mecanismo conhecido como Chapter 11, para reorganizar aproximadamente US$ 2,5 bilhões em dívida. Como parte do acordo, esse endividamento deverá ser reduzido para cerca de US$ 1,6 bilhão, enquanto a Braskem deverá contribuir com US$ 476 milhões para fortalecer a operação mexicana.

A situação internacional aumenta a complexidade da reestruturação conduzida pelo grupo. Embora o processo da Braskem Idesa seja separado do procedimento brasileiro, as duas iniciativas estão relacionadas ao esforço para reorganizar as finanças das operações do grupo e reduzir a pressão sobre o caixa. Nos Estados Unidos, foi informado que as atividades da subsidiária mexicana deverão continuar normalmente durante o processo, enquanto a reorganização é estimada para ocorrer em um período de 60 a 90 dias.

No Brasil, a companhia também enfrenta consequências financeiras relacionadas ao caso do afundamento do solo em Maceió, provocado pela exploração de sal-gema. O episódio gerou um enorme passivo ambiental e financeiro, enquanto novos dados divulgados em agosto de 2026 apontaram estimativa da Polícia Federal de aproximadamente R$ 40 bilhões em prejuízos para a União relacionados ao desastre. Paralelamente, a Justiça Federal recebeu denúncia contra a Braskem e outras pessoas, enquanto a empresa afirma seguir padrões legais e contesta as acusações apresentadas no processo.

Braskem tenta reorganizar finanças e preservar operações

A origem da atual pressão financeira também está relacionada ao longo período de dificuldades enfrentado pela indústria petroquímica mundial. Preços desfavoráveis dos produtos petroquímicos, excesso de capacidade internacional, custos elevados e dificuldades nas operações externas reduziram a capacidade de geração de caixa da empresa. Ao mesmo tempo, passivos antigos e compromissos financeiros elevados passaram a exercer uma pressão maior sobre uma companhia que precisa manter investimentos e operações industriais de grande escala.

A mudança recente no controle acionário também representa um elemento importante para o futuro da Braskem. A gestora IG4 Capital assumiu posição majoritária no controle da companhia após a operação envolvendo a antiga controladora Novonor, enquanto a Petrobras continua como uma das acionistas relevantes. Nesse novo cenário, a reestruturação da dívida deverá ser acompanhada de perto pelo mercado, principalmente porque os credores precisarão avaliar se as medidas propostas são suficientes para recuperar a capacidade financeira da petroquímica.

O pedido de recuperação extrajudicial, portanto, abre uma nova etapa para a Braskem, mas não encerra a crise financeira. Durante os próximos 90 dias, deverão ser discutidas as condições definitivas para a reorganização das dívidas, com a possibilidade de novas garantias, mudanças nos vencimentos e outras medidas destinadas a preservar a liquidez. Para a empresa, o principal objetivo será construir um acordo capaz de reduzir a pressão imediata sobre o caixa e, ao mesmo tempo, manter as operações funcionando enquanto uma solução de longo prazo é estruturada.

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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