Caiado revela plano para criar polícia transnacional e coloca segurança no centro da campanha presidencial

O candidato à Presidência da República Ronaldo Caiado (PSD) apresentou uma de suas propostas mais ambiciosas para a área de segurança pública: a criação de uma polícia transnacional na América do Sul, com atuação integrada entre o Brasil e países vizinhos. A ideia foi detalhada nesta sexta-feira (7), durante entrevista à GloboNews, quando o ex-governador de Goiás afirmou que pretende negociar diretamente com governos sul-americanos caso seja eleito presidente em 2026.
A proposta surge em um momento no qual Caiado tenta transformar a segurança pública em uma das principais marcas de sua candidatura presidencial. O político argumenta que organizações criminosas e redes ligadas ao narcotráfico ultrapassam as fronteiras nacionais e, portanto, exigiriam uma estratégia internacional de enfrentamento. Segundo ele, o modelo teria como inspiração a cooperação policial existente na União Europeia.
Caiado revela plano para criar polícia transnacional na América do Sul
De acordo com a proposta apresentada pelo candidato, uma eventual vitória nas eleições seria seguida por uma rodada de conversas com os governos dos países que fazem fronteira com o território brasileiro. Caiado afirmou que pretende visitar essas nações para negociar a formação da estrutura de segurança integrada.
O Brasil possui uma extensa fronteira terrestre e faz divisa com dez países sul-americanos: Argentina, Bolívia, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa — território ultramarino francês —, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela. A dimensão territorial e as características geográficas de diversas dessas regiões tornam o controle fronteiriço um dos desafios permanentes das forças brasileiras de segurança.
Na avaliação de Caiado, uma estrutura internacional permitiria aumentar a capacidade de acompanhamento e repressão das organizações criminosas que operam além das fronteiras brasileiras. Durante a entrevista, o candidato afirmou querer uma força capaz de “transitar” pelo continente.
Europol é citada como inspiração para proposta
Para justificar sua ideia, Caiado mencionou o exemplo europeu. A referência é a Europol, agência da União Europeia criada para fortalecer a cooperação entre autoridades policiais dos países integrantes do bloco.
Entretanto, é importante fazer uma distinção. A Europol funciona principalmente como estrutura de cooperação, inteligência e intercâmbio de informações entre autoridades nacionais. Portanto, qualquer eventual modelo sul-americano teria de ser detalhado juridicamente para determinar competências, limites territoriais, compartilhamento de informações e formas de atuação.
A implementação de uma polícia transnacional também dependeria de acordos internacionais. Afinal, nenhum governo brasileiro poderia, de maneira unilateral, autorizar forças policiais a exercerem livremente competências dentro do território de outros Estados soberanos.
Assim, embora Caiado tenha apresentado a ideia como uma prioridade política, sua concretização exigiria negociações diplomáticas, construção de tratados e definição de mecanismos de cooperação entre os países envolvidos.
“Quero ser o primeiro comandante”, afirma Caiado
Um dos trechos que mais chamaram atenção na declaração ocorreu quando Caiado falou sobre sua intenção de liderar politicamente a construção do projeto. Ao defender maior integração regional contra o narcotráfico, o candidato afirmou: “Eu quero ser o primeiro comandante”.
A declaração foi apresentada no contexto de sua intenção de percorrer os países vizinhos e buscar apoio político para a iniciativa. O candidato argumentou ainda que a América Latina não deveria continuar sendo internacionalmente associada à produção e circulação de drogas ilícitas.
Dessa maneira, Caiado procura conectar dois temas importantes para sua campanha: segurança das fronteiras e combate ao crime organizado.
Segurança pública ganha protagonismo na campanha de Caiado
A proposta não aparece isoladamente. A segurança pública vem ocupando posição central no discurso eleitoral do candidato do PSD. Além da criação de uma estrutura transnacional, Caiado defende outras medidas consideradas mais rígidas no combate à criminalidade.
Entre elas está a proposta de equiparar facções criminosas brasileiras a organizações terroristas. O candidato também defende redução da maioridade penal em determinados crimes.
Nesta mesma sexta-feira, Caiado também fez declarações sobre câmeras corporais utilizadas por policiais. Portanto, diferentes manifestações recentes indicam uma tentativa de consolidar a segurança como um dos principais elementos de diferenciação de sua candidatura na disputa presidencial.
Quem é Ronaldo Caiado?
Ronaldo Caiado tem 76 anos e possui uma das trajetórias mais longas entre os candidatos que disputam a Presidência em 2026. Médico especializado em ortopedia, ele foi deputado federal por Goiás durante cinco mandatos, senador e governador do estado por dois mandatos.
Natural de Anápolis, em Goiás, Caiado ganhou projeção nacional ainda na década de 1980, quando presidiu a União Democrática Ruralista (UDR). Desde então, construiu uma carreira política fortemente ligada ao agronegócio e consolidou-se como opositor histórico do Partido dos Trabalhadores.
A atual corrida presidencial não representa sua primeira tentativa de chegar ao Palácio do Planalto. Caiado disputou a Presidência em 1989 e recebeu 0,72% dos votos. Agora, 37 anos depois daquela eleição, retorna à disputa presidencial.
Caiado tenta ocupar espaço na disputa presidencial de 2026
Na eleição deste ano, Caiado busca se apresentar como uma alternativa no campo da direita. Segundo a Itatiaia, sua candidatura tenta se consolidar como uma terceira via diante dos dois nomes que aparecem à frente nas principais pesquisas mencionadas pela reportagem: Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O candidato do PSD tem Gilberto Kassab como vice de chapa. Nesse contexto, propostas de forte repercussão, como a criação de uma polícia transnacional, também podem funcionar como instrumento para aumentar a visibilidade de Caiado durante a campanha.
Ao mesmo tempo, a proposta abre espaço para discussões sobre soberania nacional, tratados internacionais, integração das forças de segurança, custos operacionais e compartilhamento de inteligência entre diferentes países.
Polícia transnacional dependeria de amplo acordo internacional
Embora a ideia apresentada por Caiado seja inspirada na experiência europeia, sua eventual implementação na América do Sul seria complexa. Países da região possuem legislações, estruturas policiais, sistemas judiciais e prioridades políticas diferentes.
Por isso, uma iniciativa desse porte precisaria definir claramente como funcionaria a cooperação. Questões envolvendo proteção de dados, compartilhamento de informações de inteligência, extradição, operações conjuntas e competências territoriais teriam de ser negociadas.
Além disso, a proposta dependeria da disposição dos demais governos sul-americanos em aderir à iniciativa. A presidência brasileira poderia liderar diplomaticamente as negociações, porém a criação de uma estrutura efetivamente multinacional dependeria da concordância das demais nações.
Proposta reforça estratégia eleitoral de Caiado
Ao apresentar o projeto, Ronaldo Caiado procura reforçar a imagem de candidato que pretende adotar uma política mais rígida contra facções criminosas, narcotráfico e organizações que operam internacionalmente.
A segurança pública, portanto, deverá permanecer entre os temas centrais de sua campanha presidencial. A proposta de uma polícia transnacional adiciona uma dimensão regional ao discurso, ao partir da premissa de que parte significativa do crime organizado contemporâneo não está limitada pelas fronteiras nacionais.
Ainda será necessário conhecer detalhes sobre estrutura, financiamento, comando e atribuições da eventual força. Por enquanto, a iniciativa funciona principalmente como uma proposta eleitoral que Caiado afirma pretender negociar com os países vizinhos caso chegue à Presidência.
Com a campanha de 2026 avançando, a discussão sobre segurança tende a ganhar ainda mais espaço. Nesse cenário, o plano de Caiado para criar uma polícia transnacional deverá provocar debates tanto sobre combate ao narcotráfico quanto sobre os limites jurídicos e diplomáticos de uma força internacional de segurança na América do Sul.



