Colar de R$ 2 milhões dado a Neymar ajuda polícia a descobrir rede de receptação em São Paulo

Um colar avaliado em R$ 2 milhões, entregue pelo influenciador Bruno Alexssander Souza Silva, conhecido como Buzeira, ao jogador Neymar Jr., tornou-se um dos pontos de partida de uma investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre uma suposta rede de receptação e comercialização de alianças roubadas. A joia foi presenteada ao atleta em dezembro de 2023, durante o cruzeiro Ney em Alto Mar, e ganhou ampla repercussão nas redes sociais devido ao valor elevado e à ostentação envolvida. Ao buscar informações sobre a origem e a cadeia comercial da peça, investigadores chegaram a pessoas e empresas que atuariam na compra, no derretimento e na revenda de ouro proveniente de crimes. Entretanto, não foi informado que o colar entregue a Neymar fosse roubado, e o jogador não é investigado no caso.
Colar de R$ 2 milhões chamou atenção dos investigadores
A joia, composta por ouro e pedras preciosas, foi retirada do próprio pescoço de Buzeira e entregue a Neymar durante uma festa realizada no navio. Na ocasião, o influenciador afirmou que o jogador era uma de suas maiores referências e disse que o presente representava uma forma de reconhecimento pela trajetória do atleta. As imagens circularam amplamente na internet e reforçaram a imagem de luxo associada a Buzeira, que ficou conhecido por promover rifas, sorteios e exibir carros, relógios e joias de alto valor. Posteriormente, durante outras apurações envolvendo o influenciador, a polícia passou a verificar a procedência e os responsáveis pela produção ou comercialização de seus objetos de luxo. Dessa maneira, a investigação alcançou integrantes do mercado de ouro que já eram monitorados por suspeitas relacionadas à receptação.
Operação Ouro Reverso mira comércio de alianças roubadas
As informações obtidas passaram a integrar uma investigação mais ampla, denominada Operação Ouro Reverso. A segunda fase da ação foi realizada pela Polícia Civil de São Paulo em 24 de agosto de 2026, com o cumprimento de 28 mandados de busca e apreensão e quatro ordens de prisão na capital e em Guarulhos, na Região Metropolitana. Além disso, a Justiça determinou o bloqueio de 13 contas bancárias, que somavam aproximadamente R$ 34,6 milhões. Também foram autorizados o sequestro de sete veículos e de um imóvel relacionado aos investigados. A operação foi conduzida pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais, o Deic, com a participação de auditores da Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado e avaliadores da Caixa Econômica Federal.
Polícia investiga o chamado “círculo de fogo” no centro de SP
Um dos principais alvos da operação foi uma região do centro de São Paulo conhecida pelos investigadores como “círculo de fogo”. Segundo a polícia, estabelecimentos instalados no local receberiam joias roubadas, especialmente alianças de casamento, para derreter o metal e eliminar características que permitissem a identificação das peças. Em seguida, o ouro seria transformado em novos produtos ou vendido novamente no mercado. Esse procedimento dificulta a recuperação dos objetos e rompe a ligação visual entre a joia encontrada e o boletim de ocorrência registrado pela vítima. Portanto, a atuação contra os receptadores é considerada essencial para reduzir os roubos, pois o mercado clandestino funciona como uma fonte de financiamento e oferece destino rápido aos objetos retirados das vítimas.
Colar de R$ 2 milhões não colocou Neymar sob investigação
Embora o nome do jogador apareça no título da história devido ao presente recebido, não há indicação de que Neymar tenha participado de qualquer irregularidade. O atleta recebeu a peça durante um evento público e não foi apontado como investigado pela Polícia Civil ou pela Polícia Federal nas operações relacionadas a Buzeira. Além disso, o fato de o colar ter conduzido os investigadores a uma cadeia de comerciantes não significa automaticamente que a própria joia possuía origem criminosa. O ponto relevante para a apuração teria sido o caminho comercial e os contatos identificados durante a verificação da procedência do objeto. Assim, a responsabilidade de Neymar está restrita à condição de destinatário do presente, sem evidências de conhecimento sobre eventuais suspeitas envolvendo pessoas ligadas ao comércio de ouro.
Primeira fase prendeu suspeito apontado como negociador de ouro
A primeira fase da Operação Ouro Reverso foi realizada em maio e resultou na prisão de Rony Gonçalves, apontado pela polícia como um dos principais negociadores de objetos roubados do grupo. Ele teria ligação com Suedna Barbosa Carneiro, conhecida como “Mainha do Ouro”, descrita pelos investigadores como uma possível financiadora de crimes patrimoniais. Entre os casos associados ao grupo está o roubo que terminou com a morte do ciclista Victor Medrado, atacado em fevereiro de 2025 enquanto pedalava diante do Parque do Povo, no Itaim Bibi, Zona Sul da capital. Parte das joias apreendidas foi mantida à disposição das vítimas, que precisaram apresentar fotografias, documentos ou boletins de ocorrência para comprovar a propriedade. Após o reconhecimento e a perícia, os objetos puderam ser devolvidos. A investigação relacionada ao colar contribuiu para revelar a estrutura de receptação.
Investigação busca interromper fluxo do ouro roubado
Por fim, a nova etapa da operação procura atingir não apenas os autores dos roubos, mas também comerciantes, intermediários e empresas suspeitas de transformar joias furtadas ou roubadas em ouro aparentemente regular. Essa estratégia é considerada importante porque a receptação mantém economicamente ativa toda a cadeia criminosa. Buzeira, por sua vez, já foi investigado em outros procedimentos, incluindo a Operação Narco Bet, relacionada a suspeitas de lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional de drogas. Ele foi solto em agosto de 2026 após permanecer cerca de dez meses preso e continua respondendo às apurações, sem condenação definitiva. A defesa sustenta sua inocência. No caso da Operação Ouro Reverso, caberá à Justiça avaliar as provas e definir a responsabilidade de cada investigado. Enquanto isso, deve ser preservada a presunção de inocência, e a exposição do colar não pode ser tratada, isoladamente, como prova de receptação.



