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Como Vorcaro atuava para ampliar o apoio ao Master no governo e no Congresso

Um relatório de 98 páginas elaborado pela Polícia Federal (PF), cujo sigilo foi levantado recentemente pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), trouxe novos elementos sobre a Operação Compliance Zero e ampliou o foco das investigações envolvendo o Banco Master. Segundo os investigadores, documentos, mensagens e movimentações financeiras analisados ao longo da apuração indicam a existência de uma estrutura destinada a aproximar os interesses do conglomerado de agentes públicos e parlamentares. Entre os nomes mencionados está o senador Jaques Wagner (PT-BA), que passou a ser alvo de uma das etapas da operação. O senador afirmou estar tranquilo e disse ter certeza de que poderá demonstrar sua inocência. Por orientação de sua defesa, Wagner declarou que não comentaria detalhes do inquérito. A PF ressalta que as citações a autoridades precisam ser analisadas dentro do contexto da investigação e que a presença de um nome em mensagens não significa, por si só, que a pessoa seja investigada ou tenha cometido alguma irregularidade.

De acordo com o relatório, executivos ligados ao Master, entre eles Daniel Vorcaro e Augusto Lima, buscavam construir uma imagem de proximidade com integrantes dos Poderes Executivo e Legislativo. Mensagens encontradas nos celulares analisados pelos investigadores mostram que Vorcaro mencionava autoridades que, na avaliação da PF, poderiam ser percebidas pelo grupo como interlocutores relevantes em assuntos de interesse do banco. Entre os nomes citados estão Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil, Jaques Wagner e Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia. Silveira afirmou, por meio de nota, que não tinha conhecimento nem participação em qualquer operação relacionada ao BRB e destacou que a regulação do sistema bancário não pertence à sua pasta. Rui Costa foi procurado para comentar as informações, mas, até a publicação, não havia apresentado manifestação. A PF também registra que os nomes mencionados não aparecem como investigados nessa frente específica e que não foram identificados registros formais de contato entre alguns deles e os executivos.

Outro ponto destacado pelos investigadores envolve a possível utilização dessa imagem de influência como instrumento de divulgação. Segundo a PF, em julho de 2024, um diretor comercial do Master teria relatado a Vorcaro contatos que considerava relevantes junto a integrantes do governo. A partir disso, o empresário teria orientado que a informação fosse levada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à base aliada, numa estratégia que, segundo os investigadores, poderia transformar relações políticas em uma espécie de ativo para o conglomerado. O relatório também menciona a tentativa de aprovação da aquisição do Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB), operação que acabou não recebendo autorização do Banco Central. Para a PF, as conversas indicariam que os executivos avaliavam a proximidade com autoridades como fator relevante em negócios que dependiam de decisões regulatórias. O governo federal foi procurado para esclarecer as referências e, segundo a reportagem utilizada como base, não respondeu aos questionamentos apresentados.

A investigação que alcançou Jaques Wagner também aborda a compra de um apartamento de alto padrão em Salvador, avaliado em R$ 2,45 milhões. Conforme a PF, existem indícios de que o imóvel teria sido adquirido formalmente por Augusto Lima, mas destinado ao uso do senador. Os investigadores apontam ainda um fluxo financeiro envolvendo fundo de investimento, empresas e pessoas que, segundo a apuração, poderiam ter sido utilizadas para dificultar a identificação do real beneficiário. Mensagens analisadas pela PF também são citadas como parte desse conjunto de indícios. A investigação menciona, ainda, repasses para empresas ligadas a familiares de Wagner. Uma dessas empresas, segundo seus representantes, recebeu valores por serviços de prospecção e indicação de operações de crédito consignado, todos formalizados por documentos fiscais. O senador nega ter indicado a empresa ao Master. A PF também identificou uma transferência de R$ 3,5 milhões realizada em outubro de 2025 por uma empresa ligada ao grupo, período próximo à liquidação do banco, e avalia se os pagamentos e as tratativas mantinham relação entre si.

Além das movimentações financeiras, o relatório cita benefícios logísticos que, segundo os investigadores, teriam sido disponibilizados ao senador e a familiares. A PF registrou cinco ocasiões em que Wagner teria utilizado aeronaves ligadas ao grupo para deslocamentos ao Rio de Janeiro e ao litoral da Bahia. Também são mencionados ingressos para camarotes em apresentações musicais, com despesas próximas de R$ 67 mil, que teriam sido custeadas por estruturas relacionadas a Augusto Lima e à Reag. No campo legislativo, os investigadores analisam a participação de Wagner em discussões sobre o crédito consignado e em uma proposta relacionada ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A PF avalia se determinadas iniciativas poderiam beneficiar interesses comerciais do Master, embora o senador negue ter atuado em favor do grupo. A proposta de elevação da cobertura do FGC, citada no relatório, não chegou a ser aprovada. Para os investigadores, o conjunto de informações precisa ser aprofundado para esclarecer se havia relação entre decisões políticas, vantagens financeiras e benefícios recebidos.

O relatório da PF descreve o Banco Master, na visão dos investigadores, como uma estrutura que poderia ter reunido mecanismos financeiros, patrimoniais e logísticos para estabelecer relações com agentes públicos e ampliar sua capacidade de atuação. A conclusão apresentada nessa etapa, porém, ainda integra uma investigação em andamento e não representa uma decisão judicial definitiva sobre a responsabilidade dos envolvidos. A defesa de Daniel Vorcaro já afirmou anteriormente que ele é inocente das acusações e que não houve irregularidades na gestão do banco, destacando que as informações devem ser avaliadas dentro do contexto da apuração. Os advogados de Augusto Lima também declararam que o empresário sempre atuou dentro das normas legais e que as diligências realizadas poderiam contribuir para esclarecer os fatos. Com o avanço da Operação Compliance Zero, a expectativa é que novos documentos e depoimentos ajudem a esclarecer a extensão das relações identificadas pela PF e se houve, de fato, conexão entre interesses privados, decisões públicas e as movimentações financeiras analisadas.

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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