Daniella Marques, diretora econômica de Flávio Bolsonaro, comentou sobre o debate do fim da escala 6×1

O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou um novo capítulo na campanha presidencial de 2026 depois que Daniella Marques, coordenadora da pauta econômica de Flávio Bolsonaro, classificou a discussão como “populista e inócua”. A declaração foi feita nesta sexta-feira, 21 de agosto, durante o 25º Fórum Empresarial Lide, no Rio de Janeiro, e expôs de maneira direta a posição da equipe econômica do candidato sobre uma das principais pautas trabalhistas em discussão no Congresso. Segundo Daniella, a definição das jornadas deveria ter maior participação de trabalhadores e empregadores, com menos interferência estatal.
A manifestação ocorre em um momento particularmente sensível porque a redução da jornada de trabalho se transformou em uma das bandeiras defendidas pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva para a eleição de 2026. A proposta em discussão prevê mudanças no atual modelo de seis dias trabalhados por um de descanso, enquanto o governo defende uma jornada menor sem redução salarial. Por outro lado, a campanha de Flávio Bolsonaro vem sustentando uma alternativa baseada na flexibilização das relações trabalhistas e na possibilidade de negociação mais ampla entre empresas e empregados.
A divergência, portanto, não está apenas relacionada ao número de dias trabalhados durante a semana, mas também ao papel que o Estado deve desempenhar nas relações de trabalho. Para Daniella Marques, todas as jornadas deveriam ser permitidas e as condições de contratação poderiam ser definidas diretamente entre as partes, considerando as características de cada atividade econômica. A posição coloca a campanha de Flávio em oposição ao discurso de Lula, que tenta apresentar a redução da jornada como uma medida de melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores e de modernização das relações profissionais.
Debate sobre fim da escala 6×1 divide candidatos e eleitores
A escala 6×1 estabelece, na prática, uma rotina em que o trabalhador exerce suas atividades durante seis dias e possui um dia de descanso, respeitados os limites legais de jornada e descanso. A discussão sobre sua alteração ganhou força nos últimos anos e chegou ao Congresso por meio de propostas que buscam reduzir a jornada semanal e ampliar os períodos de descanso. Em 2026, porém, o tema passou a ser tratado também como uma questão eleitoral, justamente porque diferentes candidatos passaram a apresentar visões bastante distintas sobre seus efeitos econômicos e sociais.
A posição de Daniella Marques é de que uma mudança obrigatória poderia aumentar os custos das empresas sem necessariamente produzir o benefício esperado para todas as famílias. Segundo ela, seria uma “ficção” afirmar que existe ganho para o trabalhador quando quem produz enfrenta custos elevados e pode ter dificuldades para absorver uma nova regra. A coordenadora econômica de Flávio defendeu, por isso, maior liberdade contratual e argumentou que as condições de trabalho deveriam levar em conta a realidade de cada setor e de cada relação profissional.
O argumento também se conecta diretamente à visão econômica apresentada pela campanha de Flávio Bolsonaro. A equipe pretende colocar responsabilidade fiscal, redução de despesas públicas e maior liberdade econômica entre os pilares de um eventual governo, enquanto a discussão trabalhista é tratada dentro dessa lógica de menor intervenção estatal. Nesta sexta-feira, a campanha anunciou sete novos nomes para sua equipe econômica, formada majoritariamente por profissionais que participaram do governo Jair Bolsonaro, reforçando a tentativa de apresentar uma estrutura técnica para a disputa presidencial.
Flávio Bolsonaro aposta em jornada mais flexível
A proposta defendida pela equipe de Flávio não significa, necessariamente, a manutenção de uma única escala obrigatória para todos os trabalhadores. O coordenador da campanha, Rogério Marinho, já havia defendido que o debate sobre o fim da escala 6×1 fosse realizado depois das eleições e apresentou como alternativa um modelo de “jornada flexível”, com possibilidade de negociação e remuneração por hora trabalhada. Dessa maneira, a campanha tenta se diferenciar tanto da manutenção integral do modelo atual quanto de uma mudança geral imposta por lei.
A discussão, entretanto, ganhou relevância eleitoral porque pesquisas apontam que uma parcela expressiva dos brasileiros apoia a redução da jornada. Segundo levantamento Datafolha citado em reportagem da Folha, 71% dos entrevistados são favoráveis ao fim da escala 6×1, o que transforma a pauta em um assunto potencialmente importante para candidatos que disputam o voto de trabalhadores. Nesse cenário, a resistência apresentada pela equipe de Flávio pode ser utilizada pelos adversários para caracterizar sua candidatura como contrária à redução da jornada, enquanto seus aliados deverão argumentar que a flexibilização poderia preservar empregos e reduzir custos.
Fim da escala 6×1 vira disputa econômica e eleitoral
Do outro lado do debate, o governo Lula trata a redução da jornada como uma pauta relacionada diretamente à qualidade de vida e às condições de trabalho. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a revisão da escala 6×1 deverá estar entre os temas prioritários do próximo governo e defendeu a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais sem diminuição dos salários. O ministro também afirmou que o tempo gasto no deslocamento deve ser considerado na discussão sobre as condições enfrentadas pelos trabalhadores.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, também tem pressionado pela aprovação da proposta ainda em 2026 e afirmou que o governo já fez sua parte para permitir o avanço da matéria no Senado. Segundo Marinho, existe o risco de o assunto perder espaço depois das eleições caso não seja votado neste ano, o que mostra como a pauta passou a ser incorporada ao calendário político. Enquanto isso, a oposição sustenta que uma mudança dessa dimensão deveria ser discutida com maior profundidade e sem utilização eleitoral.
O posicionamento de Daniella Marques, portanto, deve ser interpretado dentro de uma disputa maior sobre qual modelo de economia Flávio Bolsonaro pretende apresentar ao eleitorado. Ao chamar o debate sobre o fim da escala 6×1 de populista e inócuo, sua equipe procura deslocar a discussão para os possíveis custos da mudança e para a liberdade de negociação entre empresas e trabalhadores. Ao mesmo tempo, a popularidade da proposta entre os eleitores coloca um desafio para a campanha, que precisará explicar de maneira convincente como pretende melhorar as condições de trabalho sem provocar aumento de custos, redução de oportunidades ou perda de competitividade para as empresas.
O que está em jogo para trabalhadores e empresas
A discussão sobre o fim da escala 6×1 está longe de ser apenas uma disputa entre candidatos, pois envolve milhões de trabalhadores e empresas de diferentes setores da economia. Para quem defende a redução da jornada, o objetivo principal é ampliar o tempo de descanso e melhorar a qualidade de vida sem diminuir a remuneração, enquanto os críticos alertam para possíveis impactos sobre custos, preços, contratação e funcionamento de determinados segmentos. Portanto, qualquer mudança precisará considerar diferenças existentes entre comércio, indústria, serviços, saúde, transporte e outras atividades que possuem necessidades operacionais distintas.
Nesse contexto, a declaração da coordenadora econômica de Flávio Bolsonaro mostra que a campanha pretende enfrentar a proposta de Lula com um discurso baseado em liberdade contratual, responsabilidade fiscal e preocupação com os custos para quem produz. A estratégia pode agradar empresários e trabalhadores que valorizam maior flexibilidade, mas também deverá enfrentar forte resistência de setores que enxergam a escala 6×1 como um modelo desgastante que precisa ser substituído por uma jornada mais equilibrada. Assim, o debate sobre o fim da escala 6×1 deverá permanecer como um dos pontos mais relevantes da eleição de 2026, colocando de um lado a promessa de mais descanso e, de outro, o argumento de que mudanças nas regras trabalhistas precisam ser acompanhadas por responsabilidade econômica e liberdade de negociação.



