Denunciante se complica ao dar versões contraditórias contra Alfredo Gaspar, vice de Flávio

O caso envolvendo Alfredo Gaspar, deputado federal pelo PL de Alagoas e candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, ganhou novos contornos após Luiz Antônio Lopes apresentar versões diferentes sobre a origem de uma grave acusação contra o parlamentar. O homem é apontado como responsável por levar a congressistas, durante a CPI Mista do INSS, o relato de que Gaspar teria cometido estupro de vulnerável contra uma adolescente. Nos meses seguintes, contudo, Luiz Antônio passou a sustentar que a denúncia teria sido resultado de uma suposta armação política. As mudanças de versão agora colocam em dúvida a consistência das acusações e aumentam a pressão para que os fatos sejam esclarecidos pelas autoridades.
A primeira versão foi apresentada durante a CPI do INSS, quando Luiz Antônio procurou o deputado Lindbergh Farias e a senadora Soraya Thronicke. Na ocasião, afirmou possuir informações e contatos relacionados a uma suposta vítima e disse que Gaspar teria estuprado e engravidado uma adolescente. A acusação foi explorada politicamente por parlamentares governistas e uma notícia-crime chegou a ser encaminhada à Polícia Federal. O episódio ganhou ainda mais relevância porque Gaspar era relator da comissão e havia adotado uma postura de confronto com integrantes do governo durante os trabalhos.
A situação mudou em abril, quando Luiz Antônio procurou o gabinete de Gaspar e prestou depoimento à Polícia Legislativa da Câmara. Naquele momento, apresentou uma narrativa completamente diferente e afirmou que teria ocorrido uma armação contra o deputado, atribuindo a articulação a pessoas ligadas a Lindbergh. Uma semana depois, ele se filiou ao PL. Mais recentemente, em conversas com a imprensa, voltou a mencionar a acusação contra Gaspar, prometeu apresentar provas, mas não apresentou os elementos anunciados. Em novo contato, voltou a defender a tese de armação e negou ter mudado de versão.
Denunciante de suposta armação muda versão sobre Alfredo Gaspar
A sucessão de relatos tornou o caso particularmente complexo. Segundo o depoimento prestado à Polícia Legislativa, Luiz Antônio afirmou que uma mulher teria sido paga para dizer a uma jornalista que havia sido estuprada por Gaspar quando tinha 13 anos. Ainda de acordo com essa versão, uma criança teria nascido desse suposto crime e atualmente teria oito anos. Luiz Antônio também afirmou que conhecia a mulher porque ela teria trabalhado em um quiosque mantido por ele em um shopping no estado do Rio de Janeiro. As informações, contudo, fazem parte dos relatos apresentados por ele e não foram confirmadas como fatos pelas autoridades.
Quando voltou a conversar com a Folha, Luiz Antônio apresentou novamente uma narrativa diferente daquela registrada no depoimento. Ele manteve a acusação contra Gaspar, mas não apresentou provas do suposto crime. Também afirmou que teria dificuldades para entrar em contato com a mulher que apontava como vítima e mencionou até problemas financeiros para se deslocar até o local onde ela viveria. A reportagem informou ainda que os nomes apresentados por ele para a suposta vítima e para a criança não vieram acompanhados de elementos que comprovassem a existência das duas.
Investigação ainda depende de elementos concretos
Apesar das contradições, o caso não foi simplesmente arquivado. A Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de investigação sobre a acusação contra Gaspar em abril. O ministro Gilmar Mendes solicitou manifestação da Procuradoria-Geral da República, responsável por avaliar o pedido da corporação. O depoimento prestado por Luiz Antônio à Polícia Legislativa também foi encaminhado ao STF depois que Lindbergh Farias foi citado na narrativa, já que o deputado possui prerrogativa de foro.
Alfredo Gaspar nega a acusação e pediu que o exame de DNA seja realizado com rapidez. O candidato a vice de Flávio Bolsonaro afirma que o resultado poderá afastar definitivamente a suspeita e também anunciou medidas contra Lindbergh e Soraya, acusando-os de crimes relacionados à divulgação da denúncia. Lindbergh, por sua vez, nega envolvimento em qualquer armação e afirma ter sido vítima das acusações feitas por Luiz Antônio. O confronto entre as versões deverá ser analisado com base em provas e diligências oficiais.
Campanha de Flávio Bolsonaro defende Alfredo Gaspar
A escolha de Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente transformou o episódio em uma questão diretamente relacionada à disputa eleitoral. A campanha de Flávio Bolsonaro divulgou uma nova manifestação nesta terça-feira, 11 de agosto, reafirmando que considera falsa a acusação contra o deputado. O grupo também relacionou o surgimento da denúncia à atuação de Gaspar na CPI do INSS, onde ele pediu o indiciamento de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A defesa política apresentada pela campanha procura estabelecer uma ligação entre a denúncia e o embate ocorrido durante a comissão parlamentar. Gaspar passou a ocupar uma posição ainda mais relevante depois de ser escolhido para integrar a chapa presidencial do PL, fazendo com que qualquer suspeita envolvendo seu nome pudesse ser explorada pelos adversários. A campanha, portanto, tenta apresentar as mudanças de versão do denunciante como um elemento que enfraquece a acusação original, enquanto aguarda que as instituições responsáveis concluam a análise do caso.
Mudanças de versão aumentam dúvidas sobre a denúncia
Outro aspecto que chama atenção é a própria trajetória de Luiz Antônio durante o episódio. Depois de procurar parlamentares e apresentar a acusação contra Gaspar, ele mudou de posição e procurou o gabinete do deputado para afirmar que teria ocorrido uma armação. Posteriormente, voltou a sustentar a acusação em conversa com jornalistas e, pouco depois, retomou novamente a narrativa de que uma mulher teria sido contratada para sustentar uma história falsa. A sequência de relatos dificulta a identificação de uma versão estável sobre o que teria acontecido.
Lindbergh apresentou ainda à Folha vídeos antigos nos quais Luiz Antônio fazia outras acusações contra o deputado. Em uma dessas gravações, ele chegou a afirmar que Lindbergh teria sido um dos mandantes da facada sofrida por Jair Bolsonaro em 2018, afirmação que não corresponde aos fatos conhecidos sobre o episódio. Esse histórico não é suficiente para determinar a veracidade ou falsidade da denúncia contra Gaspar, mas representa um elemento que poderá ser considerado pelas autoridades ao avaliar a credibilidade dos relatos apresentados.
Caso pode afetar campanha presidencial de Flávio
O episódio ocorre em um momento particularmente delicado para Flávio Bolsonaro. A definição de Alfredo Gaspar como vice foi apresentada como uma decisão estratégica para a chapa, e qualquer investigação envolvendo o candidato pode ganhar dimensão política durante a campanha. Gaspar procura acelerar o exame de DNA e afirma estar disposto a enfrentar judicialmente aqueles que considera responsáveis pelas acusações. Enquanto isso, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal precisam avaliar se existem elementos suficientes para aprofundar a apuração.
A situação também exige cuidado na forma como as informações são apresentadas ao eleitor. Uma acusação grave não pode ser tratada como fato comprovado antes de uma conclusão das autoridades. Da mesma maneira, a alegação de que existiu uma armação também não pode ser considerada verdadeira apenas porque foi apresentada pelo próprio denunciante em determinada etapa do caso. As duas possibilidades precisam ser confrontadas com provas, documentos, depoimentos e demais elementos que possam ser obtidos durante a apuração.
O ponto mais evidente até agora é a existência de versões conflitantes apresentadas por Luiz Antônio ao longo dos últimos meses. A denúncia inicial contra Alfredo Gaspar foi seguida por uma acusação de suposta armação, depois houve um retorno à narrativa original e, novamente, uma mudança de posicionamento. Esse cenário aumenta a necessidade de uma investigação cuidadosa e independente. Para a campanha de Flávio Bolsonaro, o episódio representa um problema político que deverá continuar sendo administrado enquanto não houver uma definição institucional sobre as acusações.
A eventual realização do exame de DNA e as diligências que poderão ser determinadas pelas autoridades serão importantes para separar os relatos das evidências. Enquanto isso, Alfredo Gaspar continua negando o crime e a campanha de Flávio sustenta que a denúncia é falsa. Lindbergh e Soraya também permanecem envolvidos no caso por causa das acusações e do encaminhamento das informações às instituições competentes. O desfecho, portanto, dependerá menos das declarações públicas e mais daquilo que puder ser comprovado durante a investigação.



