Fernando Haddad relatou que foi abordado por PMs bem na frente de sua residência

Fernando Haddad, candidato do PT ao governo de São Paulo nas eleições de 2026, afirmou nesta quarta-feira, 12 de agosto, que foi abordado de maneira considerada fora do padrão por uma viatura da Polícia Militar ao chegar em sua residência, na zona sul da capital paulista. Segundo o relato apresentado pelo petista, o episódio aconteceu por volta das 22h30 da noite anterior, quando ele retornava para casa acompanhado de seu motorista. A abordagem, conforme descreveu Haddad, foi rápida, mas teria sido seguida por um acompanhamento prolongado do funcionário responsável pela condução do veículo. O caso foi tornado público durante um evento realizado na sede da Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo e deverá ser levado ao governo estadual para esclarecimentos.
De acordo com Haddad, os policiais iluminaram seu rosto com uma luz quando ele deixou o automóvel em frente à residência, mas não conversaram com ele nem solicitaram documentos. Inicialmente, o candidato afirmou ter imaginado que se tratava apenas de uma ronda policial. Entretanto, segundo seu relato, a situação teria assumido outra proporção depois que o motorista seguiu viagem em direção à própria casa. O funcionário teria sido acompanhado pela mesma viatura durante aproximadamente 40 minutos, com momentos em que o carro policial teria emparelhado com o veículo e direcionado luzes para o automóvel. A informação foi considerada preocupante pela campanha, principalmente porque, segundo o advogado Hélio Silveira, o motorista teria ficado assustado com a situação.
O episódio ganhou dimensão política porque Haddad disputa justamente o comando do estado responsável pela Polícia Militar. O atual governador, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, é candidato à reeleição e aparece como um dos principais adversários do petista na disputa paulista. Por isso, a campanha de Haddad informou que pretende questionar o governo estadual para saber se a ação policial foi determinada, se houve algum motivo específico para o acompanhamento e se os agentes envolvidos estavam cumprindo alguma operação. Haddad afirmou que não pretende acusar antecipadamente os policiais e admitiu a possibilidade de ter ocorrido uma confusão, mas defendeu que os fatos sejam apurados. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo havia sido procurada pelo UOL, mas ainda não havia apresentado manifestação até a atualização da reportagem.
Haddad diz que PM perseguiu motorista durante cerca de 40 minutos
O relato apresentado pelo candidato ganhou novos detalhes por meio de seu advogado de campanha. Segundo Hélio Silveira, o motorista teria decidido parar o veículo em frente a um hotel localizado nas proximidades da Avenida 23 de Maio para tentar compreender por que estava sendo acompanhado. Conforme a versão apresentada, mesmo depois de o funcionário entrar no estabelecimento, a viatura teria permanecido no local. O motorista teria então procurado os policiais para perguntar o motivo da abordagem e, de acordo com o advogado, recebeu como resposta apenas uma ordem para deixar o local. Em seguida, a viatura teria seguido outro caminho. Ainda conforme o relato, durante o acompanhamento o veículo policial teria chegado a encostar no para-choque do automóvel, enquanto os ocupantes portavam fuzis.
Diante da situação, Haddad afirmou que considera necessário buscar informações oficiais antes de tirar conclusões sobre o episódio. O candidato classificou o caso como desagradável e disse esperar que tenha ocorrido apenas uma confusão. Ao mesmo tempo, destacou que a publicidade dada ao episódio tem relação com a preocupação de preservar a segurança de sua equipe e de pessoas que trabalham com ele. Segundo Haddad, caso a situação não fosse comunicada publicamente e algum problema ocorresse posteriormente, seria mais difícil estabelecer uma sequência dos acontecimentos. Assim, a campanha pretende solicitar esclarecimentos ao governo de Tarcísio e verificar se existe algum registro operacional que possa explicar a presença da viatura e o comportamento relatado pelo motorista.
Segurança pública vira tema central na campanha de Haddad
A ocorrência foi relatada por Haddad justamente durante uma agenda em que a segurança pública estava entre os principais assuntos discutidos. Na sede da OAB-SP, o candidato apresentou propostas para o setor e defendeu uma utilização maior de tecnologia no combate à criminalidade. Entre as medidas mencionadas está a criação de mecanismos digitais para registro de ocorrências, com possibilidade de utilização de aplicativos e validação eletrônica. Haddad também propôs o cruzamento de informações para identificar regiões com maior incidência de crimes e, dessa forma, direcionar o patrulhamento policial de maneira mais precisa. A proposta foi apresentada como parte de uma estratégia voltada à modernização da segurança paulista.
O petista também afirmou que pretende melhorar a integração entre diferentes forças de segurança. Segundo Haddad, o Sistema Único de Segurança Pública deve ter papel central na articulação entre União, estados e municípios, enquanto as Guardas Municipais poderiam ser incorporadas de maneira mais efetiva às ações de combate ao crime, em conjunto com as polícias estaduais e federais. Para casos de violência contra mulheres, o candidato defendeu o desenvolvimento de canais que permitam acelerar o atendimento e o cruzamento de informações, inclusive com dados hospitalares que possam ajudar na identificação de situações recorrentes. Nesse contexto, o episódio envolvendo a PM e o motorista ganhou peso político, pois ocorreu no mesmo dia em que Haddad apresentava propostas para modificar a segurança pública de São Paulo.
O evento na OAB também foi marcado por outro posicionamento de Haddad, desta vez relacionado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O candidato afirmou discordar de uma declaração feita por Lula em julho, quando o presidente disse que advogado criminalista não saberia defender inocentes e atuaria apenas na defesa de criminosos. A fala havia provocado reação da Ordem dos Advogados do Brasil, que classificou a declaração como preconceituosa e ressaltou a importância da defesa, do contraditório e do devido processo legal. Haddad, que mantém seu registro na OAB e chegou a integrar a defesa jurídica de Lula em 2018, afirmou que não concorda com a avaliação do presidente e apresentou sua experiência profissional como exemplo da importância da advocacia criminal.
O episódio envolvendo Haddad e a Polícia Militar, portanto, deverá continuar sendo explorado na campanha eleitoral de São Paulo, principalmente porque ocorre em uma disputa marcada por fortes divergências sobre segurança pública. Por enquanto, o que existe é o relato apresentado pelo candidato e por seu advogado, enquanto a versão oficial da Secretaria de Segurança Pública ainda era aguardada. Dessa forma, qualquer conclusão sobre as razões da abordagem dependerá da apuração dos fatos e de eventuais registros da operação. Ao mesmo tempo, a denúncia coloca novamente a atuação da Polícia Militar no centro do debate eleitoral e cria uma situação delicada para o governo Tarcísio, que deverá ser questionado pela campanha adversária sobre o comportamento dos agentes. Haddad, por sua vez, tenta utilizar o episódio para reforçar sua defesa de uma segurança pública mais integrada, tecnológica e baseada em procedimentos que possam ser fiscalizados pela sociedade.




