Lula tem uma grande preocupação nas próximas semanas e precisará agir rapidamente

.A chamada taxa das blusinhas ganhou um peso político que ultrapassa a discussão sobre comércio exterior e arrecadação. O imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, criado em 2024, passou a ser associado diretamente ao custo de produtos populares e, segundo avaliação do cientista político Leonardo Barreto, da consultoria Think Policy, tornou-se um dos principais pontos de desgaste eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026. A análise foi repercutida pela CNN Brasil em meio à preparação do cenário político para a eleição presidencial.
O assunto ganhou ainda mais relevância porque a cobrança foi posteriormente retirada pelo próprio governo federal. Em 12 de maio de 2026, Lula assinou uma medida provisória que zerou o Imposto de Importação para compras de até US$ 50 enquadradas nas regras do Remessa Conforme. Na prática, o consumidor deixou de pagar o tributo federal de 20%, embora o ICMS estadual tenha continuado sendo cobrado, com alíquotas que podem variar conforme o estado.
A mudança ocorreu justamente em um ano eleitoral e passou a ser interpretada politicamente de diferentes maneiras. Enquanto o governo apresentou a decisão como uma alteração possível após avanços no combate ao contrabando e na regularização das plataformas, analistas enxergaram também um movimento com potencial de melhorar a percepção popular. A própria Bloomberg destacou que a revogação ocorreu a poucos meses da eleição e poderia contribuir para recuperar a popularidade presidencial.
Taxa das blusinhas virou problema político para Lula
A força eleitoral da taxa das blusinhas está relacionada principalmente à maneira como o imposto é percebido pelo consumidor. Diferentemente de tributos mais complexos, a cobrança aparecia de forma direta no preço de roupas, acessórios, eletrônicos e outros produtos adquiridos em plataformas internacionais. Por isso, o impacto podia ser percebido imediatamente por quem fazia compras em sites como Shein, Shopee e AliExpress. A pesquisa Latam Pulse Brasil, divulgada em março, mostrou que 62% dos entrevistados consideravam a taxa um erro do governo Lula, colocando a medida como o principal erro apontado naquele levantamento.
O problema político, portanto, não estava apenas no valor arrecadado ou na discussão sobre concorrência com a indústria brasileira. A medida passou a ser incorporada ao debate sobre o custo de vida e sobre a relação entre o governo e o consumidor de menor renda. Leonardo Barreto, da Think Policy, já havia apontado os impostos, incluindo a taxa das blusinhas, entre os fatores relacionados à perda de popularidade de Lula. Nesse contexto, a decisão de eliminar a cobrança federal foi apresentada como uma tentativa de retirar do debate eleitoral um tema que vinha provocando rejeição. A questão ganhou uma dimensão ainda mais curiosa porque o mesmo governo que havia sancionado a cobrança em 2024 decidiu encerrá-la em 2026. Naquele momento, o imposto havia sido defendido como instrumento para reduzir a diferença de tratamento tributário entre produtos importados e mercadorias vendidas pelo comércio brasileiro. A indústria e o varejo argumentavam que empresas nacionais estavam submetidas a uma carga tributária que dificultava a competição com plataformas estrangeiras, enquanto consumidores reclamavam do aumento dos preços das compras internacionais.
Fim da taxa das blusinhas trouxe efeito imediato
Depois da retirada do imposto federal, o comportamento dos consumidores passou a oferecer um indicador concreto sobre a importância do tema. Dados da Receita Federal apontaram que 28,36 milhões de encomendas internacionais chegaram ao Brasil em junho de 2026, primeiro mês completo sob as novas regras. O volume representou crescimento de 118% na comparação com junho de 2025 e de 72% em relação a abril de 2026, antes do fim da cobrança.
Esse aumento demonstra que o preço final exerce influência relevante sobre o comportamento de compra, embora não permita afirmar, isoladamente, qual será o efeito eleitoral da medida. Uma pesquisa da Proteste divulgada em junho mostrou que 92% dos entrevistados aprovavam a revogação da taxa, enquanto levantamento BTG/Nexus também indicou forte aprovação da decisão entre os eleitores. Assim, o tema passou de uma discussão tributária para uma questão de comunicação política, percepção econômica e avaliação do governo. Há, contudo, um detalhe que pode manter a taxa das blusinhas no debate político mesmo depois de sua retirada. A partir de 2027, as compras internacionais deverão ser alcançadas pela Contribuição sobre Bens e Serviços, a CBS, prevista na reforma tributária, e a alíquota definitiva ainda será estabelecida. Estimativas divulgadas ao longo de 2026 apontam para algo próximo de 9%, mas o percentual final ainda depende dos cálculos e da regulamentação, o que significa que a discussão sobre impostos nas compras internacionais está longe de terminar.
O cenário atual, portanto, apresenta uma situação politicamente delicada para Lula: a cobrança que havia provocado desgaste foi retirada justamente durante o ano eleitoral, mas o assunto poderá retornar sob uma estrutura tributária diferente. Enquanto isso, a aprovação do governo apresentou sinais de melhora em julho, quando a pesquisa Genial/Quaest registrou 48% de aprovação e 47% de desaprovação, embora os números permanecessem tecnicamente empatados dentro da margem de erro. Dessa forma, a taxa das blusinhas deve continuar sendo observada não apenas pelo impacto econômico nas compras internacionais, mas também pela capacidade de influenciar a percepção dos eleitores sobre impostos, preços e decisões do governo federal.




