Lula tenta fechar com Motta e Alcolumbre últimas vitrines eleitorais antes de outubro

A poucos dias de uma das últimas grandes janelas de votação do Congresso antes do avanço definitivo do calendário eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reúne nesta quarta-feira, 26, com os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre. No centro da conversa estão duas propostas que ganharam espaço no discurso político do governo e passaram a ser apresentadas por Lula como possíveis marcas de sua campanha à reeleição: o fim da escala de trabalho 6×1 e a revisão da chamada “taxa das blusinhas”. Mais do que uma reunião para organizar a pauta legislativa, o encontro reúne interesses políticos que podem influenciar tanto as próximas votações quanto as articulações para o comando do Congresso em 2027. Com o período eleitoral se aproximando, cada votação aprovada passa a ter peso adicional na estratégia do governo para mostrar resultados ao eleitorado.
A expectativa em torno da chamada taxa das blusinhas é ainda maior porque existe um prazo concreto para a definição. A medida provisória que estabeleceu a redução do imposto para compras internacionais de até US$ 50 tem validade até 8 de setembro. Caso o Congresso não conclua a análise dentro do prazo, a cobrança de 20% poderá voltar a valer. Para o governo, portanto, a aprovação definitiva da mudança precisa avançar rapidamente para evitar que uma promessa apresentada por Lula durante eventos políticos fique sem resultado antes do primeiro turno. Em discurso recente no Rio Grande do Norte, o presidente pediu apoio para a eleição de parlamentares que, segundo ele, possam contribuir para aprovar as duas medidas. Na ocasião, Lula também afirmou que conversaria diretamente com Motta e Alcolumbre sobre o assunto, colocando os presidentes das duas Casas no centro da articulação.
A proposta de acabar com a escala 6×1 apresenta um percurso diferente. Como se trata de uma Proposta de Emenda à Constituição, a matéria precisa cumprir uma sequência de etapas antes de chegar à decisão definitiva do Senado. O relator Omar Aziz optou por manter como referência o texto aprovado pela Câmara, evitando uma alteração que poderia fazer a proposta retornar aos deputados. A previsão é que o parecer seja apresentado na quinta-feira e analisado pela Comissão de Constituição e Justiça em 2 de setembro. Depois disso, ainda será necessário construir espaço político para que a proposta seja levada ao plenário e submetida aos dois turnos de votação exigidos para uma PEC. O calendário, portanto, é apertado, e qualquer mudança de estratégia poderá alterar o ritmo de uma matéria que ganhou destaque entre as prioridades do governo.
A negociação também tem importância para Hugo Motta e Davi Alcolumbre. O presidente da Câmara já declarou apoio à permanência de Lula no Palácio do Planalto, enquanto o petista sinalizou disposição de apoiá-lo para continuar à frente da Câmara em 2027, caso seja reeleito. No Senado, o cenário envolve uma articulação mais ampla. Alcolumbre trabalha para reunir apoio à sua permanência no comando da Casa no próximo ano, e a relação com o governo federal pode ser relevante nessa construção. Dentro do grupo político de Lula, existe a avaliação de que o avanço de pautas consideradas populares, principalmente a discussão sobre a escala 6×1, pode ajudar a aproximar o PT das negociações envolvendo a futura composição da Mesa do Senado. Assim, as decisões tomadas agora podem produzir efeitos que ultrapassam o calendário eleitoral de 2026.
É justamente essa sobreposição de interesses que transforma a reunião em um momento estratégico para todos os envolvidos. Lula precisa do apoio dos comandos da Câmara e do Senado para acelerar projetos que pretende apresentar ao eleitor como resultados concretos de seu governo. Motta e Alcolumbre, por outro lado, precisam administrar as demandas do Executivo sem perder de vista as alianças que serão decisivas para a disputa pelo comando das duas Casas após as eleições. A situação cria uma espécie de calendário paralelo: enquanto o governo trabalha para entregar medidas antes do primeiro turno, os parlamentares também calculam os efeitos dessas decisões sobre a composição política que será formada para 2027. Cada acordo, portanto, pode ter impacto tanto imediato quanto futuro.
A reunião desta quarta-feira acontece, dessa forma, em um momento no qual política, votações e sucessão do Congresso se encontram no mesmo espaço de negociação. Para Lula, conseguir avanços na 6×1 e na taxação das compras internacionais significaria chegar à campanha com duas bandeiras de forte apelo junto ao eleitorado. Para Motta e Alcolumbre, atender às prioridades do governo pode fazer parte de uma negociação maior, envolvendo apoio político e a construção de alianças para o próximo ciclo legislativo. O resultado da conversa será acompanhado de perto porque o tempo disponível é curto: o Congresso terá poucas oportunidades para concluir matérias de grande repercussão antes que a campanha eleitoral domine a agenda política. A partir de agora, cada votação poderá representar não apenas uma decisão legislativa, mas também uma peça importante no tabuleiro que definirá os próximos passos de Brasília.



