Pesquisa realizada pela UFRJ em parceria com a Universidade de Cambridge serve de alerta

Um estudo realizado pela UFRJ em parceria com a Universidade de Cambridge colocou o Brasil em uma posição de destaque negativo quando o assunto é transparência nas redes sociais. A pesquisa avaliou o acesso a informações públicas e dados de publicidade em 15 plataformas digitais na União Europeia, no Reino Unido e no Brasil, identificando no país níveis particularmente baixos de disponibilidade de informações para pesquisadores, órgãos de fiscalização e sociedade civil. O resultado chama atenção porque ocorre em um período no qual as redes sociais têm papel central na circulação de notícias, na publicidade e também na formação da opinião pública.
O relatório, chamado “Data Not Found: Transparência de redes sociais para a integridade da informação”, mostra que a falta de dados acessíveis dificulta o acompanhamento independente do funcionamento das grandes plataformas. Segundo os pesquisadores, essa situação favorece a criação de ambientes nos quais redes de desinformação podem ser mais difíceis de identificar e onde também se torna complicado verificar a origem e o alcance de determinados anúncios. Dessa forma, o problema da transparência digital não está restrito à tecnologia, mas envolve diretamente questões relacionadas à informação, à fiscalização e à própria qualidade do debate público.
A comparação internacional também evidencia uma diferença importante entre o Brasil e regiões que adotaram regras mais rigorosas para obrigar as plataformas a fornecer determinadas informações. Enquanto a União Europeia possui mecanismos como a Lei de Serviços Digitais, o estudo aponta que o acesso brasileiro aos dados permanece significativamente mais limitado. Por isso, a conclusão apresentada pelos pesquisadores coloca em discussão a necessidade de regras capazes de ampliar a transparência das redes sociais sem eliminar direitos relacionados à privacidade e à liberdade de expressão.
Brasil lidera a opacidade digital nas redes sociais
De acordo com a pesquisa, a transparência das redes sociais não tem sido garantida de maneira uniforme pelas grandes empresas de tecnologia. No Brasil, diversos aplicativos de grande alcance apresentam restrições importantes para o acesso público a informações sobre conteúdos e publicidade, o que dificulta análises independentes sobre o funcionamento dessas plataformas. Assim, pesquisadores que desejam identificar padrões de circulação de informações ou estudar campanhas publicitárias podem encontrar obstáculos que não existem na mesma intensidade em outras regiões.
Entre os exemplos apresentados está a Meta, responsável por plataformas como Facebook e Instagram. Embora a empresa tenha sido classificada como oferecendo acesso significativo a dados de anúncios no Reino Unido, o acesso a informações sobre conteúdos produzidos por usuários no Brasil foi considerado insignificante pela pesquisa. Além disso, a disponibilidade de informações estaria limitada à própria Biblioteca de Conteúdos da empresa, reduzindo a possibilidade de análises independentes realizadas em larga escala.
Outras plataformas também foram avaliadas negativamente no levantamento. TikTok, Kwai, WhatsApp, Discord e Threads aparecem entre os serviços cujos dados de publicidade ou de conteúdo foram classificados como indisponíveis para monitoramento público no Brasil, enquanto Bluesky e YouTube obtiveram classificação significativa e consistente para acesso programático a dados públicos de conteúdo. No caso do X, antigo Twitter, o estudo aponta que existe possibilidade de acesso a determinados dados, mas os custos cobrados tornam a pesquisa independente inviável em muitos casos.
Transparência nas redes sociais afeta combate à desinformação
A falta de transparência nas redes sociais pode produzir consequências que vão muito além da dificuldade de pesquisadores acessarem bancos de dados. Quando informações sobre publicidade, alcance e distribuição de conteúdos não podem ser analisadas adequadamente, torna-se mais difícil identificar campanhas coordenadas, redes de desinformação e estratégias utilizadas para atingir determinados públicos. Em um ano eleitoral como 2026, essa questão ganha importância ainda maior, porque conteúdos digitais podem influenciar a percepção dos eleitores e a própria dinâmica da disputa política.
Outro ponto destacado pelo estudo está relacionado à publicidade digital. Segundo os pesquisadores, muitos repositórios mantidos pelas grandes plataformas não permitem buscas suficientemente detalhadas por palavras-chave e não fornecem informações precisas sobre quem foi alcançado por determinado anúncio, o que limita a fiscalização desse mercado. Consequentemente, campanhas publicitárias podem ser analisadas de maneira incompleta, dificultando a identificação de estratégias de segmentação e de possíveis práticas irregulares.
A situação também precisa ser observada dentro de um cenário no qual o Brasil se tornou um dos principais mercados para consumo de conteúdo digital. Redes sociais são utilizadas diariamente para comunicação pessoal, entretenimento, publicidade e acompanhamento de acontecimentos políticos, enquanto plataformas de vídeo e aplicativos de mensagens ocupam espaço importante na circulação de informações. Portanto, quando os mecanismos de transparência permanecem limitados, a sociedade passa a depender mais das próprias empresas para compreender como os conteúdos são distribuídos, classificados e impulsionados.
Estudo defende novas regras para plataformas digitais
Diante dos resultados, o NetLab UFRJ e o Minderoo Centre for Technology and Democracy defendem a adoção de medidas que aumentem a transparência das plataformas no Brasil. Entre as propostas apresentadas estão a criação de leis regionais de transparência, protocolos internacionais de interoperabilidade de dados e mecanismos capazes de diminuir a diferença existente entre os direitos de usuários brasileiros e europeus. A ideia central é fazer com que informações relevantes possam ser fiscalizadas de maneira independente, respeitando as regras aplicáveis à proteção de dados.
O debate ganha ainda mais relevância durante o período eleitoral, quando plataformas digitais são utilizadas por candidatos, partidos, empresas e usuários para disseminar informações em grande escala. Paralelamente, outros levantamentos recentes também têm apontado desafios relacionados à transparência das plataformas e ao uso de inteligência artificial no ambiente eleitoral brasileiro, especialmente em relação a conteúdos automatizados e campanhas de influência. Nesse contexto, ampliar a capacidade de auditoria pode ser considerado um dos caminhos para permitir que pesquisadores e instituições compreendam melhor os mecanismos que determinam o alcance das informações.
O estudo, portanto, não aponta apenas uma deficiência técnica, mas apresenta uma discussão sobre a relação entre empresas de tecnologia, sociedade e instituições públicas. Enquanto a União Europeia e o Reino Unido avançaram na criação de obrigações legais para aumentar o acesso a determinadas informações, o Brasil ainda aparece com níveis inferiores em diferentes categorias analisadas. Por fim, a conclusão reforça que a transparência nas redes sociais deverá continuar sendo um dos principais temas do debate digital brasileiro, especialmente diante do crescimento da desinformação, da publicidade segmentada e da importância das plataformas nas eleições.



