PF aponta atuação de Jaques Wagner em quatro frentes de interesse do Banco Master

Um novo e detalhado capítulo da Operação Compliance Zero colocou o líder governista no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), no centro de intensas apurações conduzidas pela Polícia Federal. Relatórios técnicos enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF) apontam que o parlamentar teria atuado em quatro frentes legislativas e estratégicas perfeitamente alinhadas aos interesses econômicos do antigo Banco Master e de seus principais executivos, Daniel Vorcaro e Augusto Ferreira Lima. A partir da análise minuciosa de dados de mídias apreendidas, conversas telefônicas e trâmites de matérias no Congresso Nacional, os investigadores identificaram pontos de convergência entre a atividade parlamentar do senador e as metas de expansão do grupo financeiro. O caso ganha gravidade institucional com a menção de repasses indiretos e vantagens econômicas indevidas, segundo ressaltado pelo ministro relator André Mendonça.
A primeira frente de investigação concentra-se na tramitação da Medida Provisória que expandiu as margens do crédito consignado para aposentados e beneficiários de programas sociais. Os relatórios policiais indicam que, paralelamente ao apoio ostensivo prestado pelo senador à matéria no Senado, uma empresa pertencente à sua nora, Bonnie Toaldo Bonilha, assinou um contrato de representação exclusiva com o Banco Master para prospectar justamente esse perfil de crédito. Para os peritos da PF, a simultaneidade entre a apresentação de emendas parlamentares favoráveis e o fechamento do contrato comercial constitui um indício forte de contrapartida. Procurada para esclarecer a relação comercial e os termos do contrato, a defesa da empresária não retornou aos contatos da reportagem.
Outro eixo de relevante impacto refere-se às discussões em torno da Proposta de Emenda à Constituição sobre a autonomia do Banco Central. Mensagens recuperadas revelam que diretores da instituição financeira enviaram ao gabinete do senador sugestões de texto para alterar as regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), propondo quadruplicar o limite de cobertura por investidor. Batizada nos bastidores de “emenda Master”, a medida era vista pelos controladores do banco como um gatilho capaz de multiplicar o volume de negócios da instituição. Os relatórios registram ainda diálogos nos quais o parlamentar sugeria a realização de reuniões privadas em seu próprio gabinete, sob a justificativa de garantir um ambiente reservado e evitar a exposição de executivos nas agendas públicas oficiais.
O terceiro ponto sob apuração envolve as articulações políticas destinadas a viabilizar a tentativa de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). A Polícia Federal interceptou trocas de mensagens e áudios nos quais o senador demonstrava acompanhar de perto os desdobramentos da transação comercial, questionando os executivos sobre o andamento das conversas institucionais. Enquanto a cúpula do banco celebrava publicamente a aprovação interna da compra e monitorava requerimentos de informação protocolados por outros parlamentares no Congresso, os investigadores avaliam que a postura do líder político funcionou como um suporte de influência estratégica para chancelar a operação perante os órgãos de fiscalização e o mercado.
A quarta linha de investigação aborda a tramitação do Projeto de Lei do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa, matéria de extrema relevância ambiental que teve Jaques Wagner como relator oficial. De acordo com a PF, executivos do Banco Master mantinham interesse direto na regulamentação do mercado de créditos de carbono devido a investimentos volumosos no projeto imobiliário e ambiental denominado “Fazenda Amazônica”. Os relatórios documentam o recebimento de sugestões diretas de emendas encaminhadas por interlocutores do banco ao gabinete do relator, configurando, na avaliação dos peritos, um interesse empresarial pontual e direcionado sobre a confecção final do texto legislativo.
Diante do conjunto de dados apresentados pela Polícia Federal, a assessoria do senador Jaques Wagner optou por reiterar declarações anteriores nas quais o parlamentar afirma manter total tranquilidade em relação ao trabalho das autoridades. O senador declarou confiar plenamente na atuação das instituições republicanas e ressaltou ter certeza de que demonstrará a regularidade de seus atos ao longo da instrução processual. As defesas dos executivos Daniel Vorcaro e Augusto Ferreira Lima também foram procuradas pela reportagem, mas não enviaram posicionamento até a conclusão da matéria. O espaço permanece integralmente aberto para as manifestações das partes envolvidas, enquanto o processo segue em análise sob sigilo parcial no STF.




