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Zema, candidato à Presidência, explicou aumento de quase 300% do próprio salário

O candidato à Presidência da República Romeu Zema (Novo) precisou explicar, durante entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, realizada na noite de segunda-feira, 24 de agosto de 2026, por que seu próprio salário como governador de Minas Gerais foi elevado em quase 300%. A remuneração, que era de aproximadamente R$ 10,5 mil, passou para cerca de R$ 41,3 mil após uma mudança aprovada durante seu governo, em 2023. O assunto ganhou ainda mais repercussão porque Zema deixou o comando do Estado para disputar a Presidência e agora precisa apresentar aos eleitores sua justificativa para uma medida que provocou críticas desde sua aprovação.

Durante a sabatina, Zema afirmou que o reajuste não teve como objetivo beneficiar pessoalmente o governador, mas permitir que os salários dos secretários estaduais também fossem elevados. Segundo o ex-governador, a Constituição de Minas Gerais estabelece que nenhum secretário pode receber remuneração superior à do chefe do Executivo estadual, o que teria limitado a capacidade de atrair profissionais para cargos considerados estratégicos. Dessa maneira, a justificativa apresentada pelo candidato foi baseada na necessidade de tornar o primeiro escalão do governo mais competitivo diante dos salários pagos em outras administrações públicas.

A explicação, contudo, ocorre em um contexto eleitoral no qual o próprio histórico de gestão de Zema passou a ser colocado sob avaliação nacional. O candidato tenta transformar sua experiência como governador de Minas Gerais em uma das principais credenciais para chegar ao Palácio do Planalto, mas precisa responder a questionamentos relacionados a salários, dívida pública, privatizações e resultados administrativos. Além disso, durante a mesma entrevista, ele apresentou outras propostas e posições controversas, o que fez da participação na Globo um momento importante para medir como suas ideias serão recebidas pelo eleitorado.

Zema explica aumento do próprio salário e cita falta de profissionais

Segundo Zema, a situação encontrada no governo mineiro era de dificuldade para atrair profissionais qualificados para algumas secretarias. Ele argumentou que um secretário responsável por uma estrutura gigantesca, como a Secretaria de Educação, poderia receber menos do que um ocupante de cargo semelhante em municípios muito menores, criando um desestímulo para profissionais experientes aceitarem uma função no Estado. Por isso, na avaliação apresentada pelo candidato, o reajuste deveria ser entendido como uma medida administrativa destinada a melhorar a composição do primeiro escalão, e não simplesmente como um aumento concedido ao governador.

Na prática, a mudança aprovada em 2023 elevou a remuneração do governador de R$ 10,5 mil para aproximadamente R$ 41,3 mil, enquanto o salário dos secretários passou de cerca de R$ 10 mil para R$ 34,7 mil. O reajuste do governador ficou próximo de 300%, enquanto a remuneração dos secretários também sofreu uma elevação expressiva, justamente porque o teto constitucional estadual precisava ser respeitado. Assim, a medida não atingiu apenas Zema, mas alterou toda a estrutura salarial do primeiro escalão do Executivo mineiro.

Zema também afirmou que, pessoalmente, não teria se beneficiado financeiramente da elevação porque decidiu doar os valores recebidos como governador durante todo o período em que esteve à frente do Estado. Segundo ele, os recursos foram destinados a unidades da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, a APAE, em diferentes regiões de Minas Gerais, e a prática teria sido mantida desde janeiro de 2019 até sua saída do governo, em março de 2026. Dessa forma, o candidato apresentou a doação como argumento para sustentar que o aumento da remuneração não representou enriquecimento pessoal durante sua administração.

Aumento salarial de Zema volta ao centro da campanha presidencial

A justificativa apresentada por Zema, entretanto, não elimina o debate sobre a oportunidade e o impacto político do reajuste. Isso acontece porque o candidato construiu boa parte de sua trajetória no Partido Novo defendendo controle de gastos públicos, responsabilidade fiscal e uma postura crítica em relação a privilégios existentes na administração pública. Consequentemente, a elevação da própria remuneração passou a ser utilizada por adversários como argumento para questionar a coerência entre o discurso de austeridade e determinadas decisões tomadas durante seu governo em Minas Gerais.

O episódio também precisa ser analisado dentro da realidade financeira do Estado, que continua enfrentando uma situação delicada relacionada à dívida pública. Durante a entrevista à Globo, Zema afirmou que os juros cobrados pela União contribuíram para o crescimento do endividamento mineiro, enquanto críticos de sua administração apontam que a dívida aumentou significativamente durante seus anos de governo. Segundo dados citados na cobertura da sabatina, o estoque da dívida passou de aproximadamente R$ 88 bilhões em 2019 para quase R$ 180 bilhões em 2025, embora a relação entre dívida e receita líquida tenha apresentado uma trajetória diferente daquela observada no valor nominal.

Nesse cenário, a discussão sobre o salário do governador ganha uma dimensão maior do que o valor individual recebido pelo ocupante do cargo. De um lado, existe o argumento de que funções públicas estratégicas precisam oferecer remuneração compatível com o nível de responsabilidade e com o mercado de trabalho, especialmente quando profissionais qualificados podem escolher oportunidades mais vantajosas. De outro, existe a preocupação de que aumentos expressivos em cargos do alto escalão sejam vistos pela população como privilégios, sobretudo quando servidores de outras áreas não recebem reajustes na mesma proporção.

O que o aumento de Zema revela sobre sua campanha

A entrevista no Jornal Nacional foi importante para Zema porque permitiu ao candidato apresentar diretamente sua versão sobre decisões tomadas durante os dois mandatos como governador de Minas Gerais. Além da questão salarial, ele falou sobre economia, salário mínimo, privatizações, dívida pública, vacinação e os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, mostrando que pretende construir uma candidatura baseada em uma combinação de discurso liberal na economia e posições conservadoras em temas políticos.

A reação à entrevista, portanto, deverá ser observada tanto pelos apoiadores quanto pelos adversários de Zema, principalmente porque a campanha presidencial de 2026 começa a colocar os candidatos diante de comparações mais diretas sobre suas experiências administrativas. No caso do ex-governador, a defesa de que o aumento salarial foi necessário para contratar melhores secretários será confrontada com a percepção dos eleitores sobre os resultados obtidos em Minas Gerais, enquanto sua afirmação de que doou os próprios vencimentos será usada para reforçar sua imagem de gestor que afirma priorizar o interesse público.

Welesson Oliveira

Welesson Oliveira é jornalista brasileiro, especializado em política, combate à corrupção, segurança pública e geopolítica. Atua no jornalismo independente com foco em análises, reportagens investigativas e cobertura dos principais fatos do Brasil e do mundo.

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