Donald Trump está enfrentando dificuldade para acabar com a guerra em Gaza

Israel rejeitou o plano de Trump para Gaza e voltou a estabelecer uma condição considerada central para qualquer avanço nas negociações: as tropas israelenses não deixarão o território enquanto o Hamas não estiver completamente desarmado. A posição foi reafirmada pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu neste domingo, 9 de agosto, em um momento no qual os Estados Unidos tentam avançar com uma proposta destinada a encerrar o conflito e estabelecer uma nova estrutura de segurança para a região. A declaração mostra que, apesar das expectativas criadas recentemente, ainda existem obstáculos importantes para a implementação do acordo.
O plano apresentado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prevê uma retirada gradual das forças israelenses de Gaza acompanhada pelo desarmamento do Hamas. A proposta também contempla a formação de uma força internacional de estabilização e a criação de uma estrutura policial palestina para atuar no território. Entretanto, Israel e Hamas divergem justamente sobre a ordem em que essas medidas deverão ocorrer. Enquanto o governo israelense exige o desarmamento antes da retirada militar, o grupo palestino afirma que Israel precisa interromper os ataques e retirar suas tropas antes que a entrega de armas seja efetivada.
A situação ocorre depois de Trump ter anunciado recentemente um avanço nas negociações, afirmando que havia sido alcançado um entendimento para implementar seu plano de paz. A expectativa, porém, acabou sendo acompanhada por novas dificuldades. Israel afirma que qualquer desarmamento precisa ser real e completo, incluindo armas leves, armas pesadas e estruturas subterrâneas utilizadas pelo Hamas. O grupo palestino, por sua vez, rejeita o termo desarmamento, embora tenha indicado disposição para colocar suas armas sob controle de uma administração palestina tecnocrática apoiada pelos Estados Unidos.
Israel rejeita plano de Trump e exige desarmamento completo
Benjamin Netanyahu afirmou que Israel não aceita o documento de 15 pontos apresentado pelos Estados Unidos na forma atual. Segundo o primeiro-ministro, não haverá retirada das tropas israelenses de Gaza enquanto o Hamas não for desarmado de maneira considerada efetiva pelo governo de Israel. A exigência inclui todos os tipos de armamentos e também as estruturas utilizadas pelo grupo, o que torna a questão muito mais complexa do que simplesmente recolher armas em determinadas áreas do território.
A posição de Netanyahu também precisa ser observada dentro do cenário político israelense. O primeiro-ministro enfrenta pressão de integrantes da ala mais à direita de sua coalizão, que defendem a continuidade da presença militar em Gaza e rejeitam qualquer acordo que permita ao Hamas manter capacidade armada. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, apoiou publicamente a postura de Netanyahu e afirmou que Gaza não deveria iniciar um processo de reconstrução antes do desmantelamento completo do Hamas.
Hamas também impõe condições para acordo em Gaza
Do outro lado das negociações, o Hamas afirma continuar comprometido com o roteiro negociado com os mediadores. O grupo, entretanto, entende que a implementação das medidas deve respeitar compromissos assumidos anteriormente, principalmente aqueles relacionados à interrupção dos ataques israelenses e à retirada das tropas. Dessa maneira, criou-se um impasse sobre a sequência dos acontecimentos: Israel quer que o desarmamento venha primeiro, enquanto o Hamas exige mudanças na atuação militar israelense antes de entregar suas armas.
O grupo palestino também evita utilizar diretamente a expressão desarmamento. Segundo informações divulgadas nas negociações, o Hamas teria concordado em entregar suas armas para armazenamento sob controle de uma administração palestina apoiada pelos Estados Unidos. A proposta permitiria que o armamento deixasse de ficar sob controle operacional do grupo, mas a diferença de linguagem demonstra que ainda existe uma distância considerável entre as posições. Para Israel, é necessário eliminar a capacidade militar do Hamas; para o grupo palestino, a questão precisa estar vinculada a garantias políticas e à retirada israelense.
Plano de Trump prevê retirada gradual e força internacional
A proposta de Trump foi construída para criar uma transição gradual em Gaza. Entre os elementos previstos estão o aumento da ajuda humanitária, a administração do território por palestinos tecnocratas, o desarmamento do Hamas e a retirada progressiva das forças israelenses. Uma força internacional de estabilização também está prevista para atuar em áreas que não estejam sob controle israelense, com a possibilidade de participação de países estrangeiros.
A tentativa de formar essa estrutura internacional já começou a produzir movimentações diplomáticas. Uganda, por exemplo, autorizou recentemente a possibilidade de enviar tropas para Gaza como parte de uma eventual força multinacional. A participação de militares estrangeiros, contudo, ainda depende da definição das condições de implementação do plano e de questões relacionadas à segurança e ao comando dessas tropas. Enquanto isso, o grupo de tecnocratas palestinos que deveria administrar Gaza ainda não conseguiu iniciar seu trabalho dentro do território.
Guerra em Gaza continua dificultando avanço diplomático
O cenário humanitário também aumenta a pressão sobre os negociadores. Apesar do cessar-fogo firmado anteriormente e das tentativas de avançar com o plano de Trump, ataques israelenses continuaram sendo registrados em Gaza. Segundo autoridades de saúde palestinas citadas pela Reuters, mais de 1.250 pessoas foram mortas em ataques israelenses desde o cessar-fogo, sendo a maioria civis. O Hamas não divulga de forma detalhada o número de combatentes mortos nesse período.
A situação no território permanece extremamente delicada. Grande parte da população foi deslocada, enquanto as forças israelenses mantêm controle sobre uma parcela significativa de Gaza. A expansão das áreas controladas pelo Exército israelense provocou novos deslocamentos e aumentou a preocupação entre moradores que já foram obrigados a deixar suas casas várias vezes. Governos da região, incluindo Egito, Catar e Turquia, também criticaram os ataques e afirmaram que a continuidade das operações prejudica os esforços para implementar a segunda fase do acordo.
O impasse mostra que o principal desafio do plano de Trump não está apenas na assinatura de um entendimento político, mas na definição de como cada compromisso será executado. Israel considera indispensável eliminar a capacidade militar do Hamas antes de retirar suas tropas, enquanto o grupo palestino entende que a retirada israelense e o fim das operações precisam ocorrer antes da entrega efetiva de suas armas. Essa divergência pode atrasar a implementação do acordo e manter Gaza em uma situação de instabilidade.
Por enquanto, as negociações continuam cercadas de incertezas. Trump busca apresentar seu plano como uma oportunidade para encerrar o conflito e estabelecer uma nova estrutura política e de segurança em Gaza, mas Netanyahu deixou claro que Israel não aceitará uma retirada sem garantias de desarmamento completo do Hamas. Com a população palestina ainda enfrentando uma grave crise humanitária e as forças israelenses mantendo presença em grande parte do território, o futuro do plano dependerá da capacidade dos mediadores de conciliar exigências que, neste momento, continuam bastante distantes.



