Justiça determinou que imagem associando Raquel Lyra a Flávio Bolsonaro deve ser removida imediatamente

O Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE) determinou a retirada de uma publicação que associava a governadora Raquel Lyra, do PSD, ao senador Flávio Bolsonaro, do PL. A decisão foi tomada nesta quarta-feira, 12 de agosto, após uma representação apresentada pela coligação da governadora, que apontou possíveis práticas de propaganda eleitoral antecipada negativa, desinformação e uso irregular de inteligência artificial. O episódio chama atenção porque envolve justamente um dos temas que deverão ganhar espaço nas eleições de 2026: a utilização de imagens manipuladas e conteúdos produzidos por tecnologia para influenciar a percepção dos eleitores.
Segundo a decisão do desembargador eleitoral Fernando Braga Damasceno, a imagem publicada nas redes sociais apresentava Raquel Lyra abraçada a uma pessoa cuja fisionomia reproduzia, de forma reconhecível, a aparência de Flávio Bolsonaro. A montagem tinha aparência de fotografia real e era acompanhada da frase “em Pernambuco o bolsonarismo é roxo”. Na legenda, também foi publicada uma mensagem que procurava associar politicamente a governadora ao bolsonarismo. O problema apontado pela Justiça Eleitoral foi agravado pelo fato de a postagem não informar que a imagem havia sido produzida ou manipulada por inteligência artificial.
O caso ganhou repercussão porque, conforme registrado na decisão, o encontro retratado na publicação nunca aconteceu. Dessa forma, uma imagem artificial teria sido utilizada para criar a aparência de um acontecimento verdadeiro e transmitir ao eleitor uma determinada percepção sobre o posicionamento político de Raquel Lyra. A campanha da governadora classificou a decisão como uma “vitória da verdade sobre a manipulação” e afirmou que a publicação faria parte de um conjunto de ataques coordenados contra a candidata. O perfil responsável pela postagem não se manifestou, enquanto a campanha de João Campos, do PSB, também não havia comentado o caso.
TRE de Pernambuco reage a imagem feita com inteligência artificial
A decisão do TRE-PE estabelece que a publicação deveria ser removida no prazo de 24 horas, sob pena de multa diária de R$ 10 mil. O responsável pelo perfil também foi proibido de republicar, compartilhar ou impulsionar novamente o mesmo conteúdo. Paralelamente, foi determinado que a plataforma Facebook Serviços Online do Brasil preserve arquivos, registros, logs e metadados relacionados à publicação e à conta responsável pelo material. A medida busca permitir que a Justiça Eleitoral avance na identificação de quem efetivamente publicou a peça.
Nesse contexto, a decisão possui um caráter que vai além da retirada de uma simples postagem. Ao determinar a preservação dos registros digitais e solicitar dados cadastrais, o TRE-PE procura descobrir quem está por trás do perfil denominado Juventude João Campos. Depois que o responsável for identificado, ele deverá ser formalmente incluído no processo e terá direito de apresentar sua defesa. Portanto, ainda não existe uma condenação definitiva contra a pessoa que publicou a imagem. O próprio desembargador ressaltou que a análise realizada neste momento é preliminar e não representa uma conclusão final sobre a natureza do conteúdo ou sobre eventual crime ou ilícito eleitoral.
Por que a identificação da IA é obrigatória?
A questão central está na transparência. Conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial podem apresentar pessoas em situações que nunca aconteceram, criando imagens extremamente semelhantes a fotografias convencionais. Por isso, a identificação desse tipo de material foi incorporada às regras eleitorais para que o eleitor tenha condições de distinguir uma cena verdadeira de uma criação artificial. Na avaliação apresentada pelo magistrado, a rotulagem não deve ser tratada como uma simples exigência burocrática, pois funciona como um mecanismo de proteção da integridade da informação durante a disputa eleitoral.
No caso envolvendo Raquel Lyra e Flávio Bolsonaro, a ausência dessa identificação foi considerada especialmente relevante porque a imagem poderia levar o público a acreditar que os dois políticos haviam se encontrado e demonstrado proximidade. A situação ganha peso eleitoral porque a associação entre candidatos estaduais e lideranças nacionais pode ser utilizada para alterar percepções sobre alianças, ideologia e posicionamento político. Assim, quando uma situação inexistente é apresentada com aparência de fotografia autêntica, o risco apontado pela Justiça é de que o eleitor tome uma decisão com base em uma informação falsa ou artificialmente construída.
Raquel Lyra fala em ataques coordenados durante campanha
A governadora Raquel Lyra afirma que o episódio não seria isolado. Em nota encaminhada à reportagem, sua campanha classificou a situação como parte de um suposto “gabinete do ódio” que já estaria sendo investigado pelo TRE em Pernambuco. A expressão foi utilizada para caracterizar uma possível rede organizada de perfis que teria como objetivo atacar a governadora nas redes sociais. A campanha também afirma que existem suspeitas de utilização de robôs para ampliar a circulação de determinados conteúdos, hipótese que ainda precisa ser investigada pelas autoridades competentes.
Na segunda-feira, 10 de agosto, a governadora havia protocolado uma ação no TRE para pedir a apuração da origem dos supostos ataques. A iniciativa mostra que a disputa eleitoral em Pernambuco já começa a ser travada também no ambiente digital, onde conteúdos podem alcançar milhares de pessoas em pouco tempo. Entretanto, é necessário separar as alegações apresentadas pela campanha das conclusões da Justiça. Até o momento, a decisão relacionada à imagem de Raquel Lyra determina a retirada do conteúdo e a preservação de dados para investigação, mas não estabelece de forma definitiva quem produziu a montagem ou se existe uma estrutura coordenada por trás dela.
Imagem de Raquel Lyra e Flávio Bolsonaro expõe desafio eleitoral
O episódio envolvendo Raquel Lyra e Flávio Bolsonaro revela um dos principais desafios das eleições de 2026: controlar a circulação de conteúdos manipulados sem impedir o debate político legítimo. A tecnologia permite que críticas, sátiras e paródias sejam produzidas com grande facilidade, mas também possibilita a criação de situações fictícias com aparência de realidade. Por isso, a diferença entre opinião, humor, montagem e desinformação precisará ser analisada caso a caso pela Justiça Eleitoral. No cenário atual, uma fotografia aparentemente comum pode esconder uma manipulação capaz de modificar completamente o significado de uma cena.
A determinação do TRE-PE também demonstra que a identificação de conteúdos produzidos por inteligência artificial deverá ocupar papel importante na fiscalização eleitoral. Quando uma imagem falsa é apresentada como se fosse verdadeira, o problema deixa de ser apenas uma discussão sobre estética ou tecnologia e passa a envolver a qualidade das informações disponíveis ao eleitor. Nesse sentido, a decisão de Fernando Braga Damasceno aponta que conteúdos fabricados para conferir aparência de realidade a acontecimentos inexistentes podem ter capacidade de interferir na percepção do eleitorado.
Para Raquel Lyra, o episódio oferece também uma oportunidade de reforçar sua narrativa de independência política e de denunciar aquilo que considera ataques coordenados. Para seus adversários, por outro lado, a disputa continuará sendo marcada pela tentativa de associar a governadora a diferentes grupos políticos, especialmente em um estado onde as alianças nacionais podem ter peso significativo na eleição. O fato é que a imagem retirada pelo TRE-PE já não está disponível, mas o debate provocado por ela permanece. A investigação sobre a origem do conteúdo poderá esclarecer quem esteve por trás da publicação e se houve uma atuação organizada.
O caso, portanto, deve ser acompanhado com atenção porque estabelece um precedente importante para a campanha eleitoral em Pernambuco. A Justiça Eleitoral deixou claro que a utilização de inteligência artificial não está proibida, mas seu emprego em conteúdos eleitorais precisa respeitar regras destinadas a garantir transparência. Ao mesmo tempo, qualquer investigação deverá preservar o direito de defesa e evitar conclusões antecipadas. Em uma eleição cada vez mais digital, a capacidade de identificar o que é real, manipulado, satírico ou deliberadamente enganoso será fundamental para que o eleitor possa formar sua opinião com base em informações confiáveis.



