ONU pede que Rússia permita participação de partido antiguerra nas eleições parlamentares

A Organização das Nações Unidas pediu que as autoridades da Rússia garantam a participação do Iabloko nas eleições parlamentares previstas para setembro de 2026. A legenda é apontada como o único partido legalmente registrado no país que se posiciona de maneira aberta contra a guerra na Ucrânia e defende um acordo imediato de cessar-fogo. O apelo internacional foi feito depois que a Suprema Corte russa determinou a retirada da sigla da disputa pela Duma Estatal, a Câmara Baixa do Parlamento. Consequentemente, os eleitores russos poderão chegar às urnas sem uma alternativa partidária relevante que defenda publicamente o encerramento do conflito iniciado em fevereiro de 2022. Embora o governo russo sustente que as regras eleitorais precisam ser cumpridas por todos, entidades internacionais e representantes da oposição consideram que justificativas administrativas vêm sendo utilizadas para restringir a concorrência política e eliminar manifestações contrárias ao Kremlin.
ONU pede que Rússia permita candidatura do Iabloko
A manifestação da ONU foi direcionada ao governo do presidente Vladimir Putin e às instituições responsáveis pelo processo eleitoral russo. O organismo internacional argumentou que os direitos de participação política, liberdade de expressão e associação devem ser protegidos, sobretudo durante eleições nacionais. O pedido está relacionado diretamente à exclusão do Iabloko, decisão tomada poucas semanas antes da votação parlamentar. Para as Nações Unidas, uma eleição legítima exige que diferentes posições possam ser apresentadas à população, incluindo opiniões críticas às políticas governamentais. Além disso, foi destacada a necessidade de que candidatos, integrantes de partidos e eleitores não sofram perseguição por exercerem direitos políticos. Entretanto, até o momento, não existem sinais de que a decisão judicial será voluntariamente revertida pelas autoridades russas.
Suprema Corte excluiu partido das eleições de setembro
A Suprema Corte da Rússia proibiu a participação do Iabloko depois de analisar uma ação apresentada pelo Rodina, partido nacionalista alinhado ao Kremlin. A legenda adversária alegou que teriam ocorrido irregularidades durante o processo de registro eleitoral, entre elas supostos apoios de campanha não declarados e outras violações administrativas. As acusações foram negadas pela direção do Iabloko, que classificou o julgamento como politicamente motivado e anunciou a apresentação de recurso. Inicialmente, as listas partidárias haviam sido certificadas pela Comissão Eleitoral Central, o que permitiu o avanço do registro de centenas de candidatos. Posteriormente, contudo, o procedimento foi questionado judicialmente. O presidente nacional da sigla, Nikolai Rybakov, afirmou que a retirada da disputa representa uma tentativa de impedir que o eleitorado manifeste sua opinião sobre a guerra. Dessa maneira, a controvérsia deixou de ser apenas eleitoral e passou a simbolizar o grau de tolerância do Estado russo às vozes dissidentes.
Partido antiguerra defende cessar-fogo e negociação diplomática
Fundado em 1993, durante o período de reorganização política posterior ao fim da União Soviética, o Iabloko construiu sua identidade em torno de propostas liberais, democráticas e favoráveis à proteção dos direitos humanos. Sua plataforma para as eleições de 2026 foi resumida pelo lema “Por paz e liberdade”, além de defender negociações diplomáticas entre Moscou e Kiev e medidas destinadas a evitar uma escalada nuclear. O partido também pede uma Rússia livre do medo e da repressão política. Apesar disso, a legenda não possui atualmente representantes na Duma Estatal e registra percentuais modestos nas pesquisas nacionais. Ainda assim, seu valor político aumentou porque os demais partidos autorizados a disputar as eleições apoiam diretamente a ofensiva militar ou evitam confrontar a política externa de Putin. Portanto, sua exclusão retira do processo eleitoral uma posição existente na sociedade russa, ainda que minoritária ou difícil de medir em um contexto de forte controle informacional.
Integrantes do Iabloko enfrentam processos e prisões
A retirada das listas eleitorais não foi um acontecimento isolado. Nos últimos anos, integrantes e dirigentes do Iabloko passaram a enfrentar investigações, condenações, prisões e enquadramentos na legislação russa sobre “agentes estrangeiros” e extremismo. Dois vice-presidentes da legenda, Lev Shlosberg e Maxim Kruglov, foram detidos e passaram a responder a processos relacionados, entre outros elementos, a manifestações contrárias à guerra publicadas nas redes sociais. Outros membros foram impedidos de concorrer depois de mencionarem ou divulgarem imagens de Alexei Navalny, opositor de Putin que morreu em uma prisão no Ártico em 2024. Como Navalny e suas organizações foram classificados como extremistas pelas autoridades russas, referências públicas ao ativista passaram a ser utilizadas como fundamento para punições. Além disso, candidatos regionais denunciaram o desaparecimento de documentos que teriam sido entregues às comissões eleitorais. Em São Petersburgo, por exemplo, vários nomes foram rejeitados sob a justificativa de que seus processos estavam incompletos, embora alguns afirmassem possuir gravações e protocolos de entrega.
Exclusão do partido reduz pluralidade nas eleições russas
As eleições para a Duma Estatal deverão ser realizadas entre 18 e 20 de setembro de 2026. Ao todo, estarão em disputa 450 cadeiras, sendo metade preenchida pelo sistema de listas partidárias e metade por distritos eleitorais individuais. O Rússia Unida, partido dominante e principal base política de Vladimir Putin, controla amplamente o Parlamento e sustenta as decisões do governo. Embora outras legendas estejam registradas, como o Partido Comunista, o Partido Liberal Democrático, o Rússia Justa e o Novas Pessoas, nenhuma delas mantém oposição aberta à guerra semelhante à defendida pelo Iabloko. Por isso, críticos do Kremlin afirmam que a exclusão compromete a competitividade da votação. A decisão também ocorre enquanto pesquisas indicam desgaste gradual do apoio popular ao conflito e aumento do interesse por negociações de paz. No entanto, levantamentos de opinião realizados em regimes com restrições à liberdade de expressão devem ser interpretados com cautela, pois muitos entrevistados podem evitar respostas consideradas sensíveis.
ONU alerta para direitos políticos e liberdade de expressão
O caso do Iabloko amplia a pressão internacional sobre Moscou, mas dificilmente produzirá uma mudança imediata sem uma decisão interna ou a aceitação do recurso anunciado pelo partido. Desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, o governo russo aprovou leis mais rigorosas contra informações classificadas como falsas sobre as Forças Armadas, protestos antiguerra e organizações supostamente financiadas pelo exterior. Como resultado, jornalistas, ativistas e adversários políticos foram presos, deixaram o país ou reduziram suas manifestações públicas. Nesse cenário, quando a ONU pede que Rússia permita a participação do Iabloko, o organismo não avalia apenas a viabilidade eleitoral de uma legenda, mas também questiona a possibilidade de escolha efetiva oferecida aos cidadãos. A decisão final sobre a candidatura ainda poderá ser revista em recurso; entretanto, se a exclusão for mantida, as eleições ocorrerão sem o único partido russo que transformou o cessar-fogo e a negociação diplomática em elementos centrais de seu programa nacional.




