Renan Santos chama fim da escala 6×1 de “maluquice” e propõe acabar com Justiça do Trabalho

O candidato à Presidência da República Renan Santos, do partido Missão, defendeu mudanças profundas na legislação trabalhista brasileira durante um encontro com representantes dos setores de comércio e serviços, realizado nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, em Brasília. Entre as propostas apresentadas estão a criação de um regime de contratação baseado em horas trabalhadas, a substituição gradual do atual modelo da Consolidação das Leis do Trabalho e a extinção da Justiça do Trabalho. Além disso, Renan Santos chama fim da escala 6×1 de “maluquice” e afirma que a redução obrigatória da jornada poderia provocar desemprego, aumento dos custos empresariais e fechamento de negócios. As declarações colocam o presidenciável em posição contrária à proposta defendida pelo governo federal, por sindicatos e por movimentos de trabalhadores.
Renan Santos chama fim da escala 6×1 de risco econômico
A manifestação ocorreu no evento “Encontro com Presidenciáveis — Diálogo pelo Futuro do Brasil”, promovido pela União Nacional de Entidades do Comércio e Serviços. Diante de empresários e representantes do setor produtivo, Renan declarou que pretende impedir o avanço da proposta que reduz a jornada de trabalho e limita a utilização da escala 6×1, na qual o funcionário trabalha durante seis dias e descansa no sétimo. Segundo o candidato, o Congresso teria cedido à pressão política em torno da medida sem avaliar adequadamente os possíveis impactos sobre empresas que funcionam todos os dias. Ele mencionou diretamente a iniciativa associada à deputada Erika Hilton e afirmou que, caso seja eleito, trabalhará para encerrar a discussão. Entretanto, qualquer tentativa de arquivar ou modificar a proposta dependerá da composição do Congresso e da etapa legislativa em que o texto se encontrar.
Debate sobre escala 6×1 divide trabalhadores e empresários
A proposta de acabar com a escala 6×1 ganhou força nacional após mobilizações nas redes sociais e manifestações de trabalhadores, especialmente dos setores de comércio, restaurantes, supermercados e serviços. Os defensores da mudança argumentam que uma jornada com apenas um dia semanal de descanso dificulta a convivência familiar, prejudica a saúde mental e reduz a qualidade de vida. Além disso, sustentam que novas formas de organização poderiam manter a produtividade sem reduzir salários. Por outro lado, entidades empresariais alertam que a alteração pode aumentar os gastos com contratações, horas extras e encargos trabalhistas. Pequenos negócios e atividades que funcionam durante finais de semana seriam particularmente afetados. Portanto, o debate envolve não apenas o número de dias trabalhados, mas também produtividade, remuneração, formalização, custos e proteção social.
Candidato afirma que atual modelo da CLT perdeu validade
Durante o encontro, Renan declarou que a Consolidação das Leis do Trabalho “já deu” e “já era”. A CLT foi criada em 1943 e reúne normas sobre contratos, férias, jornada, repouso remunerado, rescisões e diferentes direitos do trabalhador. Embora tenha sido modificada inúmeras vezes, inclusive pela reforma trabalhista de 2017, continua sendo a principal referência para as relações formais de emprego no país. Na avaliação do candidato, entretanto, o modelo não acompanha a atual economia de serviços e cria barreiras para a contratação. Como alternativa, ele defende um sistema no qual a remuneração seja calculada de maneira mais flexível conforme as horas efetivamente trabalhadas. Além disso, propõe ampliar formatos semelhantes ao Microempreendedor Individual para formalizar pessoas que prestam serviços urbanos. Críticos desse modelo alertam, porém, para o risco de trabalhadores perderem proteção previdenciária, férias, 13º salário e Fundo de Garantia.
Renan Santos propõe extinguir a Justiça do Trabalho
Outra proposta apresentada pelo presidenciável é o encerramento da Justiça do Trabalho, instituição especializada responsável pelo julgamento de conflitos entre empregados, empregadores, sindicatos e outras partes das relações trabalhistas. Renan argumenta que disputas privadas, como falta de pagamento de salários, poderiam ser resolvidas pela Justiça comum na área cível. Além disso, ele considera que a estrutura trabalhista possui um custo elevado e cria uma relação de tensão permanente entre empresas e funcionários. O plano divulgado pelo candidato estima um orçamento anual de aproximadamente R$ 24 bilhões e sugere que parte dos recursos economizados seja utilizada para reduzir ou eliminar tributos incidentes sobre a folha de pagamento. Entretanto, especialistas contrários à ideia observam que a Justiça comum já enfrenta sobrecarga e poderia não possuir a mesma especialização para lidar com processos sobre trabalho escravo, acidentes, terceirização, assédio e direitos coletivos.
Extinção exigiria mudança na Constituição e apoio do Congresso
Mesmo que Renan seja eleito presidente, a Justiça do Trabalho não poderá ser encerrada por decreto ou decisão individual do chefe do Executivo. Sua estrutura está prevista na Constituição Federal e inclui o Tribunal Superior do Trabalho, os Tribunais Regionais do Trabalho e os juízes trabalhistas. Por isso, seria necessária a apresentação de uma Proposta de Emenda à Constituição. O texto teria de ser aprovado em dois turnos na Câmara dos Deputados e no Senado, com o apoio de três quintos dos parlamentares em cada votação. Da mesma forma, uma substituição ampla da CLT dependeria da aprovação de projetos pelo Congresso. Consequentemente, as propostas anunciadas durante a campanha representam uma orientação política, mas sua aplicação dependeria de negociações com deputados, senadores, entidades empresariais, sindicatos e representantes dos trabalhadores.
Propostas trabalhistas entram no centro da eleição presidencial
As declarações de Renan Santos reforçam a disputa entre diferentes visões para o mercado de trabalho. Enquanto partidos de esquerda defendem a redução da jornada sem diminuição salarial, setores liberais propõem maior liberdade contratual e redução dos encargos pagos pelas empresas. Renan procura ocupar este segundo campo e se apresenta como candidato contrário ao que chama de excesso de proteção e intervenção estatal. Entretanto, os efeitos de uma reforma dessa dimensão dependeriam da forma como direitos básicos seriam preservados e de como trabalhadores com menor poder de negociação seriam protegidos. Além disso, deverá ser explicado como milhões de processos trabalhistas em andamento seriam transferidos para a Justiça comum. Assim, quando Renan Santos chama fim da escala 6×1 de “maluquice”, ele amplia um debate que ultrapassa a jornada semanal e envolve o futuro da CLT, dos direitos sociais e da própria estrutura do Judiciário brasileiro.



