Trump acusou vários países, inclusive o Brasil, de se envolverem no ‘transbordo ilegal’

O governo de Donald Trump incluiu o Brasil em uma lista de mais de 40 países que, segundo as autoridades norte-americanas, podem estar sendo utilizados para facilitar o chamado transbordo ilegal de mercadorias chinesas. A acusação foi apresentada em um relatório divulgado pelos Estados Unidos nesta quinta-feira, 13 de agosto de 2026, em meio ao aumento das tensões comerciais entre Washington, Brasília e Pequim. O documento coloca o Brasil no grupo de países que apresentam condições consideradas favoráveis para o redirecionamento de produtos destinados ao mercado norte-americano.
A denúncia ocorre em um momento particularmente delicado das relações entre Brasil e Estados Unidos. Desde que o governo Trump passou a impor tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, o comércio entre os dois países entrou em uma nova fase de tensão, enquanto Brasília procura negociar as medidas e, simultaneamente, avalia mecanismos de resposta. Agora, a acusação de que o território brasileiro poderia estar sendo utilizado para contornar tarifas chinesas acrescenta uma nova dimensão à disputa, porque envolve diretamente a relação econômica do Brasil com a China.
Entretanto, é importante diferenciar uma acusação de uma conclusão definitiva sobre a participação do governo brasileiro. O relatório norte-americano aponta o Brasil como possível rota de transbordo e destaca características da economia brasileira que, segundo Washington, podem facilitar esse tipo de operação, mas a inclusão na lista não significa, por si só, que o Estado brasileiro tenha organizado ou autorizado uma operação para ajudar a China. A questão central passa a ser identificar se empresas ou operadores privados utilizaram mecanismos de comércio internacional para modificar a origem aparente de mercadorias e, dessa forma, reduzir a incidência das tarifas americanas.
Governo Trump acusa Brasil de facilitar o transbordo de produtos chineses
O chamado transbordo ilegal, conhecido internacionalmente como transshipping, ocorre quando uma mercadoria é enviada por um terceiro país antes de chegar ao destino final. A prática pode ser legítima quando respeita as regras de origem e as exigências aduaneiras, porém passa a ser considerada irregular quando o caminho intermediário é utilizado para esconder a verdadeira origem do produto ou evitar uma tarifa que deveria ser aplicada. Segundo o relatório divulgado pelos Estados Unidos, produtos chineses poderiam passar por determinados países, receber alterações mínimas de apresentação, documentação ou processamento e depois ser enviados ao mercado americano como se tivessem outra origem.
O Brasil foi classificado no chamado Nível 2 do documento norte-americano, categoria descrita como de integração econômica significativa com a China. O país aparece ao lado de nações como Turquia, Vietnã, Tailândia, Indonésia e Malásia. De acordo com informações divulgadas sobre o relatório, os Estados Unidos identificam diferentes corredores utilizados no comércio internacional e consideram que países latino-americanos podem funcionar como pontos de armazenamento, transporte ou montagem regional. A avaliação americana considera, portanto, não apenas a quantidade de produtos comercializados, mas também a infraestrutura logística e industrial existente em cada território.
O que os Estados Unidos dizem sobre a relação entre Brasil e China
A preocupação de Washington está relacionada principalmente ao impacto das tarifas aplicadas aos produtos chineses. Quando uma mercadoria fabricada na China entra diretamente nos Estados Unidos, ela pode estar sujeita às barreiras comerciais estabelecidas pelo governo Trump. Porém, caso a origem chinesa seja ocultada por meio de uma operação realizada em outro país, os mecanismos de fiscalização norte-americanos podem enfrentar dificuldades para determinar qual tarifa deve ser cobrada. Por isso, a administração americana passou a pressionar países considerados estratégicos para impedir que suas estruturas comerciais sejam utilizadas como caminho alternativo.
O relatório também apresenta uma dimensão financeira relevante. Segundo estimativas citadas pela imprensa, a Casa Branca calcula que até US$ 303 bilhões em produtos chineses possam estar chegando ao mercado dos Estados Unidos por meio de terceiros países. Outra estimativa mencionada no levantamento aponta que o comércio relacionado ao transbordo pode movimentar entre US$ 40 bilhões e US$ 75 bilhões por ano. Para o governo Trump, combater essas operações é uma maneira de impedir que as tarifas percam eficácia e de proteger a política comercial adotada contra a China.
Acusação acontece durante nova crise comercial entre Brasil e EUA
A acusação contra o Brasil acontece enquanto o governo de Luiz Inácio Lula da Silva já adotou medidas para responder às tarifas norte-americanas. O governo brasileiro iniciou o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica, que permite a adoção de contramedidas comerciais caso sejam cumpridas as etapas previstas na legislação. O Itamaraty também comunicou aos Estados Unidos a abertura de consultas, sinalizando que Brasília pretende priorizar a negociação antes de uma eventual aplicação de medidas mais duras.
As tarifas impostas pelo governo Trump já provocaram impactos sobre o comércio bilateral. Segundo levantamento da Amcham Brasil divulgado nesta sexta-feira, 14 de agosto, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 12,2% entre janeiro e julho de 2026, chegando a US$ 21 bilhões. Entre os produtos submetidos às sobretaxas mais elevadas, a retração foi ainda maior, alcançando 31,5%, o que representa uma perda de aproximadamente US$ 1,4 bilhão em exportações.
Nesse contexto, a nova acusação poderá aumentar a pressão diplomática sobre o governo brasileiro. O Brasil mantém uma relação comercial muito importante com a China, que é seu principal destino de exportações, enquanto os Estados Unidos permanecem entre os parceiros econômicos mais relevantes. Portanto, qualquer suspeita de utilização do território brasileiro para contornar tarifas americanas poderá ser acompanhada com atenção por empresas, exportadores e autoridades aduaneiras, especialmente porque eventuais operações irregulares realizadas por companhias privadas podem gerar consequências comerciais e aumentar a fiscalização sobre produtos enviados do Brasil para os Estados Unidos.
A disputa também ocorre em paralelo a uma iniciativa brasileira na Organização Mundial do Comércio. O Brasil questionou as tarifas norte-americanas e, posteriormente, a China solicitou participação nas consultas relacionadas ao caso, alegando que as medidas dos Estados Unidos também afetam seus interesses comerciais. Embora o mecanismo da OMC tenha limitações conhecidas, principalmente pela paralisação de seu Órgão de Apelação desde 2019, o processo representa uma tentativa de levar o conflito para o ambiente multilateral.
Dessa maneira, o relatório que acusa o Brasil de ajudar a China a burlar tarifas deve ser entendido dentro de uma disputa comercial muito mais ampla. Até o momento, o documento norte-americano aponta o território brasileiro como possível rota de transbordo e não estabelece, apenas com a inclusão do país na lista, que o governo brasileiro tenha participado diretamente de qualquer esquema ilegal. A partir de agora, a identificação de empresas, mercadorias e operações específicas será fundamental para determinar se existem casos concretos de fraude aduaneira. Enquanto isso, a relação entre Brasil e Estados Unidos permanece sob forte pressão, com tarifas, negociações diplomáticas e interesses comerciais de Brasil, Estados Unidos e China cada vez mais interligados.



