Lula terá 27% mais tempo de TV e rádio que Flávio Bolsonaro

A corrida presidencial de 2026 já começa a revelar uma diferença importante na estratégia de comunicação dos candidatos: o espaço disponível no rádio e na televisão. Uma simulação baseada nas regras eleitorais e na representação dos partidos na Câmara dos Deputados aponta que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderá chegar ao horário eleitoral com a maior fatia de exposição entre os nomes considerados na projeção. O levantamento estima que a candidatura apoiada pelo PT terá 46,35% do tempo, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 35,77%. A diferença é resultado, principalmente, da composição partidária de cada candidatura e das bancadas que integram suas alianças. Ronaldo Caiado (PSD) teria 15,33%, enquanto Augusto Cury (Avante) ficaria com 2,55%. A estimativa foi elaborada por Edson Borowski, cientista político e integrante da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), Anne Silva Cabral, vice-presidente da entidade, e Eduardo Sant’Anna, advogado e especialista em Direito Constitucional, a pedido da revista Exame.
Os cálculos levam em consideração a Portaria 473, publicada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 29 de julho, além da representação das legendas na Câmara. Apesar de indicar uma tendência para a distribuição do espaço, a projeção ainda não corresponde à divisão oficial do horário eleitoral, que depende de definição posterior do TSE. Pela estimativa, os partidos e federações que apoiam Lula reúnem uma bancada de 127 deputados federais, enquanto o PL conta com 98 parlamentares. A composição das alianças, portanto, ganha peso significativo na definição da exposição dos presidenciáveis. No caso de Flávio Bolsonaro, a ausência de uma aliança nacional com outras siglas contribuiu para que sua parcela estimada de rádio e televisão ficasse abaixo da prevista para Lula. Mesmo assim, a bancada do PL garante ao senador a segunda maior participação entre os candidatos contemplados pela projeção.
Outro ponto chama atenção: embora a simulação considere 13 candidaturas à Presidência, apenas quatro teriam acesso ao horário eleitoral gratuito de rádio e televisão pelas regras atuais. Isso ocorre porque o direito à propaganda está relacionado ao desempenho dos partidos ou federações nas eleições anteriores e ao cumprimento da chamada cláusula de desempenho. Dessa forma, nomes como Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), apesar de aparecerem no debate eleitoral e nas pesquisas, não teriam segundos próprios na propaganda presidencial gratuita dentro da projeção apresentada. A regra estabelece critérios mínimos de votação ou representação parlamentar para garantir às legendas acesso ao espaço destinado à propaganda eleitoral. Na prática, o mecanismo faz com que a estrutura partidária tenha impacto direto não apenas na formação das alianças, mas também na capacidade de comunicação de cada candidatura durante a campanha.
O horário eleitoral presidencial está previsto para ocorrer entre 28 de agosto e 1º de outubro. Em cada dia de exibição, serão dois blocos de propaganda, às terças, quintas e sábados, tanto no rádio quanto na televisão. Cada bloco terá 12 minutos e 30 segundos, conforme o calendário eleitoral. Pela projeção, Lula teria aproximadamente 11 minutos e 4 segundos somados nos dois blocos, enquanto Flávio Bolsonaro teria cerca de 8 minutos e 40 segundos. Caiado apareceria com aproximadamente 4 minutos e 4 segundos, e Cury teria cerca de 1 minuto e 10 segundos. Além dos blocos, as campanhas também terão acesso às inserções distribuídas ao longo da programação. Para a Presidência, estão previstos 14 minutos diários desse tipo de propaganda, o que representa 28 inserções de 30 segundos por dia. Até o fim do primeiro turno, a estimativa aponta para pelo menos 420 inserções de 30 segundos para Lula, 330 para Flávio, 155 para Caiado e 45 para Cury.
Apesar da vantagem de exposição proporcionada pelo horário eleitoral, especialistas destacam que mais tempo de rádio e televisão não significa, por si só, maior possibilidade de vitória nas urnas. O histórico das eleições presidenciais recentes mostra situações diferentes. Em 2018, Geraldo Alckmin tinha o maior espaço de propaganda entre os candidatos, enquanto Jair Bolsonaro contava com poucos segundos, mas o resultado do primeiro turno colocou Bolsonaro na segunda etapa da disputa. Em 2022, Lula teve a maior parcela do horário eleitoral no primeiro turno e terminou eleito após a segunda rodada de votação. Para os especialistas envolvidos na análise, a televisão e o rádio continuam relevantes, mas dividem espaço com as redes sociais e outras formas de comunicação digital. A propaganda tradicional também pode servir como fonte de conteúdo para ampliar a presença das campanhas no ambiente virtual, aumentando o alcance de mensagens originalmente produzidas para o rádio e a televisão.
A disputa por alianças, portanto, continua sendo uma das peças importantes do tabuleiro eleitoral de 2026. Nos últimos dias, partidos como PP, União Brasil, MDB, Republicanos e Podemos optaram pela neutralidade na eleição presidencial, liberando seus parlamentares e diretórios estaduais para apoiar diferentes candidaturas, sem acrescentar formalmente seus tempos de rádio e televisão a uma chapa nacional. Essa decisão preserva o cenário projetado pelos especialistas e evita uma alteração significativa na divisão estimada da propaganda. A regra considera, entre outros critérios, o desempenho dos partidos nas eleições de 2022 para definir quem terá acesso ao horário eleitoral. Ao todo, oito partidos e cinco federações cumpriram ao menos uma das exigências estabelecidas para obter esse direito. Com a definição oficial ainda pendente, as próximas movimentações partidárias e o plano de mídia do TSE serão decisivos para confirmar quanto tempo cada candidato terá diante dos eleitores. Até lá, a estimativa oferece uma primeira fotografia de como a estrutura partidária poderá influenciar a comunicação da disputa presidencial.




